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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

E se é grande prerrogativa a da indulgência plenária, por ser como o martírio, mas sem tormento, não é menor, nem menos privilegiada, por ser como o Batismo, mas com repetição. A graça do sacramento do Batismo é tão maravilhosa por grande, como por fácil. Que maior maravilha, e que maior facilidade, que um homem carregado de pecados, e obrigado por eles a penas eternas, purificarse de toda a culpa e livrar-se de toda a pena, só com se lavar, ou o lavarem com uma pouca de água? Mas esta mesma graça tão grande, e esta mesma maravilha e facilidade, se é lícito falar assim, tem um notável defeito. E qual é? Não se poder o batismo reiterar, nem repetir. O homem, uma vez batizado, não se pode batizar outra vez. Essa foi a razão (como lemos em Santo Agostinho) porque muitos dos antigos catecúmenos, conhecendo esta limitação, e que não se podiam batizar mais que uma só vez, ou dilatavam o batismo para a morte, ou quando menos para a velhice, reservando, e como poupando a eficácia daquele remédio, para o tempo da maior necessidade. Era abuso, e por isso se proibiu justificadamente. Mas se o Batismo se pudera repetir, e um homem se pudesse rebatizar todas as vezes que quisesse, não há dúvida que seria graça sobre graça, e um excesso de favor muito mais para estimar. Pois isto mesmo que Deus não concedeu a todos pelo sacramento do batismo, nos concede hoje a nós pela bula da Santa Cruzada. Porque sendo a indulgência plenária, como batismo em purificar de culpa e pena, é juntamente como Batismo com repetição, porque se pode repetir e reiterar muitas vezes. O batismo é fonte que se abre uma só vez, e se torna a cerrar para sempre; mas a indulgência da Bula é fonte que se abre hoje, e todos os anos, e não se torna a cerrar, antes fica continuamente aberta. Por isso o lado de que saiu a água, que significava o batismo, de tal maneira se abriu estando Cristo morto, que não se tornou a cerrar, nem depois de ressuscitado. Aberto uma vez, e sempre aberto: Lancea latus ejus aperuit, et continuo exivit sanguis et aqua.

§IX

A segunda lançada e as queixas de Cristo à sua Igreja. Naamã Siro e o desprezo do remédio pela facilidade.

Tenho acabado o meu discurso, e sei, senhores, que vos tenho cansado, mas não sei se vos tenho persuadido. Se estais resolutos todos a vos aproveitar de tão inestimáveis tesouros, isto é o que Cristo deseja, e esta a correspondência que espera de vossa devoção: o amor e liberalidade com que para vos encher de graças, abriu e tem aberto o lado. Mas se houver algum cristão indigno de tal nome, que por fraqueza de fé, ou falta de piedade, não agradeça ao mesmo Senhor as mercês que tão de graça lhe oferece, ao menos com as aceitar e estimar como merecem, saiba que esta será a segunda lançada com que lhe penetrará mais dentro o peito aberto, e lhe ferirá o coração. A lançada do Calvário não diz o texto que feriu, senão que abriu o lado; esta segunda lançada é a que só pode ferir e penetrar tão dentro, que lhe chegue ao coração. Vulnerasti cor meum, soror mea sponsa, vulnerasti cor meum in uno oculorum tuorum.18 São queixas de Cristo à sua Igreja, que se compõe de maus e bons, de devotos e indevotos, e de fiéis e infiéis. Diz pois o amoroso Senhor, que sua esposa lhe feriu o coração com um dos olhos: In uno oculorum. E por que não com ambos? Porque os dois olhos da Igreja são a fé e o entendimento, e só com um deles, se se dividem, ferem os homens neste caso o coração de Cristo. Os hereges ferem o coração de Cristo com o olho da fé: In uno oculorum, porque negam a verdade das indulgências e o poder do pontífice para as conceder. Assim as negou Lutero, por sinal que raivoso de se dar a outro pregador o sermão da cruzada, que ele pretendia pregar. E este foi o primeiro erro com que depois se precipitou a tantos. Os católicos, que somos nós, ferem também o coração de Cristo, mas com o olho do entendimento: In uno oculorum, porque crendo o poder do pontífice e a verdade das indulgências, têm alguns tão pouco juízo, que por negligência e pouco cuidado da alma, e por desprezo dos bens do céu, deixam de se aproveitar de tamanhos tesouros. Oh! que ferida esta para o coração de Cristo, tão cruel da nossa parte, e tão sensível da sua!

(continua...)

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