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#Sermões#Retórica

Sermão da Quinta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Oh! quantos miseráveis sobre miseráveis, e quantos cegos sobre cegos há como este no mundo! Refere Sêneca um caso notável, sucedido na sua família, e diz a seu discípulo Lucílio, que lhe contará uma coisa incrível, mas verdadeira. Incredibilem tibi narro rem, sed veram. Tinha uma criada chamada Harpastes, a qual, sendo fátua de seu nascimento, perdeu subitamente a vista: Haec fatua subito desiit videre. E que vos parece que fazia Harpastes cega e sem juízo? Aqui entra a coisa incrível. Nescit esse se caecam: era cega, e não o sabia. Paedagogum suum rogat ut migret: quando o que tinha cuidado dela lhe dava a mão para a guiar; lançava-o de si. Ait domum tenebrosam esse: dizia que estava a casa às escuras, que abrissem as janelas; e as janelas que tinha fechadas não eram as da casa, eram as dos olhos. Pode haver cegueira mais fátua e mais digna de riso? Pois hás de saber; Lucílio, diz Sêneca, que desta maneira somos todos: cegos e fátuos. Cegos porque não vemos, e fátuos porque não conhecemos a nossa cegueira. Hoc quod in ea ridemus, omnibus nobis accidere liqueat tibi. Não é cegueira a soberba? Não é cegueira a inveja? Não é cegueira a cobiça? Não é cegueira a ambição, a pompa, o luxo? Não é cegueira a lisonja e a mentira? Sim. Mas a nossa fatuidade é tanta como a de Harpastes, que sendo a cegueira e a escuridade nossa, atribuímo-la à casa, e dizemos que não se pode viver de outro modo neste mundo, e muito menos na corte: Nemo aliter Romae potest vivere.23 Se somos cegos, por que o não conhecemos? Isac era cego, mas conhecia a sua cegueira: por isto tocou as mãos de Jacó, para suprir a falta da vista como tato. O mendigo de Jericó era cego, mas conhecia que o era: por isso a esmola que pediu a Cristo não foi outra senão a da vista: Domine, ut videam.24 Como havemos nós de suprir as nossas cegueiras, ou como lhes havemos de buscar remédio, se as não conhecemos?

Pois por certo que não nos faltam experiências muito claras e muito caras, para as conhecer, se não fôramos cegos sobre cegos. Olhai para as vossas quedas, e vereis as vossas cegueiras. Quando Tobias ouviu que vinha chegando seu filho, de cuja vinda e vida já quase desesperava, foi tal o seu alvoroço, que, levantando-se, remeteu a correr para o ir encontrar e receber nos braços. Tende mão, velho enganado! Não vedes que sois cego? Não vedes que não podeis andar por vós mesmo, quanto mais correr? Não vedes que podeis cair, e que pode ser tal a queda, que funeste um dia tão alegre, e entristeça todo este prazer vosso e de vossa casa? Assim foi em parte, porque a poucos passos titubantes e malseguros tropeçou Tobias e deu consigo em terra: Consurgens caecus pater ejus caepit offendens pedibus currere, et pralapsus est, diz o texto grego.25 Levantado porém em braços alheios, deu a mão o cego, já menos cego, a um criado, e com este arrimo, sem novo risco, chegou a receber o filho: Et data manu puero occurrit filio suo. De maneira que o alvoroço, a alegria súbita e o amor, cegaram de tal sorte a Tobias, que não viu, nem reparou na sua cegueira; porém, depois que caiu, a mesma queda o fez conhecer que era cego e que, como cego, se devia pôr nas mãos de quem o sustentasse e guiasse. Todas as coisas se vêem com os olhos abertos, e só a própria cegueira se pode ver com eles fechados. Mas quando ela é tão cega que não se vê a si mesma, as quedas lhe abrem os olhos para que se veja. Caíram os primeiros pais tão cegamente, como vimos, e quando se lhes abriram os olhos para verem a sua cegueira? Depois que se viram caídos: Et aperti sunt oculi amborum.26 O apetite os cegou e a caída lhes abriu os olhos. Que filho há de Adão que não seja cego? E que cego, que não tenha caído uma e muitas vezes? E que não bastem tantas caídas e recaídas para conhecermos a nossa cegueira? Se caís em tantos tropeços quantas são as vaidades e loucuras do mundo, por que não acabais de cair em que sois cego, e por que não buscais quem vos levante e vos guie? Só vos digo que se derdes a mão para isso a algum criado, como fez Tobias, que seja tão seguro criado, e de tão boa vista, que saiba por onde põe os pés, e que vos possa guiar e suster. E quando ainda assim lhe derdes a mão, adverti que não seja tanta, que se cegue também ele com a vossa graça, e vos leve a maiores precipícios. Mas já é tempo que demos a razão desta última cegueira, como das demais.

(continua...)

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