Por Padre Antônio Vieira (1669)
Santo Inácio o nome, porque o tinha dado a Jesus. O que tomou deste apostólico
instituto foi a divina providência, e porque não fosse menos providência, nem
menos divina, não só a tomou entre a caridade dos fiéis, senão entre a barbaria
dos gentios. Finalmente, do nosso insigne português, S. João de Deus, tomou
Santo Inácio a caridade pública dos próximos. Ambos se uniram na caridade, e a
caridade se dividiu em ambos. Tomaram ambos por empresa o remédio do gênero
humano enfermo. João de uma parte, curando o corpo, Inácio de outra parte,
curando a alma; João, com o nome de Deus que formou o barro; Inácio com o nome
de Jesus, que reformou o espírito. Não falo naquele grande prodígio da nossa
idade, a Santa Madre Teresa de Jesus, porque veio ao mundo depois de Santo
Inácio. Mas assim como Deus, para dar semelhante a Adão, do lado do mesmo Adão
formou a Eva, assim para dar semelhante a Santo Inácio, do lado do mesmo Santo
Inácio formou a Santa Teresa. O texto desta gloriosa verdade é a mesma santa.
Assim o deixou escrito de sua própria mão, afirmando que do espírito de Santo
Inácio, formou parte do seu espírito, e do instituto de Santo Inácio, parte do
seu Instituto.23 E este foi o modo maravilhoso com que o patriarca Santo Inácio
veio a sair semelhante sem semelhante. Semelhante, porque tomou os gêneros; sem
semelhante, porque acrescentou as diferenças. Semelhante, porque imitou a
semelhança de cada um; sem semelhante, porque uniu em si as semelhanças de
todos. Et vos similes hominibus.
§VI
Protesta o autor que as diferenças que ponderou entre Santo Inácio e os outros fundadores, posto que pareçam vantagens, não são mais que semelhanças. Santo Inácio, como Moisés, se não excedera a glória dos outros patriarcas, fora menor, porque veio depois. Como diz S. Paulo, o Verbo, para mostrar a igualdade que tem com o Pai, tornou-se dessemelhante fazendo-se homem, a fim de que no excesso ficasse proporcionada a igualdade, e na diferença a semelhança.
Tenho acabado as duas partes do meu discurso, mas temo que não falte quem me argüa de que nesta última excedi os limites dele, porque as diferenças que acrescentei às semelhanças, parece que desfazem as mesmas semelhanças. Comparei Santo Inácio com os patriarcas santíssimos das outras religiões sagradas, e na mesma comparação parece que introduzi, ou distingui, alguma vantagem, mas isso é o que eu nego. Ainda que faço de meu santo patriarca a estimação que devo e sua santidade merece, e ainda que sei as licenças que concede o dia próprio ao encarecimento dos louvores dos santos, conheço porém, e reconheço, que nem eu podia pretender tal vantagem, nem desejar-lhe maior grandeza que a semelhança de tão esclarecidos exemplares, e isso o que só fiz. Digo pois, e protesto, que as diferenças que ponderei, posto que pareçam vantagens, não são mais que semelhanças; antes acrescento que nenhuma delas fora semelhança se não tivera alguma coisa de vantagem, porque essa é a prerrogativa dos que vieram primeiro. Santo Inácio veio depois, e muito depois daqueles gloriosíssimos patriarcas; e quem vem depois, se não excede, não iguala; se não é mais que semelhante, não é semelhante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.