Por Coelho Neto (1898)
Vindo a bordo os dois pilotos logo o Gama lhes deu trinta miticaes e, a cada um a sua marlota, dispondo-se que, se um saisse á terra outro ficasse a bordo que era o meio de haverem sempre um de refem. Noite e dia rondavam as naus pirogas com indigenas que olhavam o movimento da maruja; em terra parecia haver absoluta calma, d'isso mesmo desconfiava o Gama e, para não se comprometter em lucta desigual, quiz logo fazer-se ao mar, ordenando, porém, antes de levarem, que saisse uma partida de homens em dois bateis armados para fazer provisão d'agua. Iam seguindo quando contra elles partiram muitos zambucos com mouros que bramavam despedindo flechas e brandindo irradiadas e azagaias. Responderam os dos bateis com as suas bombardas e os besteiros fizeram claros na horda dos bandidos. D'alli, tristonhos, se partiramindo fundear diante de uma ilha que ficou chamada de S. Jorge onde o Gama mandou erigir um altar celebrando um dos clerigos da frota — e muitos homens confessaram-se e commungaram voltando, com mais allivio, ás naus que logo desataram as velas, ia a bordo um dos pilotos mouros porque o outro ficara em terra homiziado e, com esse, navegando ou demorando em abafadas e mortas calmarias, depois de muito andarem, viram os nautas, com surpreza, que se achavam a quatro ou cinco leguas abaixo de Moçambique. Para esperar os ventos que ajudassem a vencer as rapidas correntes que tanto faziam desandar as naus resolveu o Gama surgir diante da mesma ilha de S. Jorge. Alli, firmados sobre as ancoras, receberam do xeque de Moçambique, como embaixador, um mouro branco que era xerife propondo a fazer a alliança e outro mouro, com um filho, guindo-se á nau pedindo que o levassem porque era dos arredores de Meca e chegára a Moçambique como piloto de uma fusta.
Com esses sucessos os dias se passaram resolvendo o Gama entrar em Moçambique para prover-se d'agua que ia escasseando. Feita a manobra, á meia-noite, estando em silencio e deserto o porto, arríararn-se bateis indo n’elles o Gama e Nicoláo Coelho e o piloto mouro, entre gente de guerra.
Em terra andaram perdidos, embrenhando-se nas mattas sem descobrir aguada e, como suspeitavam do piloto que era o mais atordoado posto que houvesse dito conhecer o sitio onde a encontrariam, apertavam a mais e mais a vigilancia.
Na tarde do dia seguinte foram de novo á terra achando o que buscavam sendo, porém, forçados a repellir o indigena que dava mostras de hostilidade como se os quizesse privar do que tanto careciam. Andavam elles n'esse empenho quando um grumete negro que levavam, vendo-se em terra mais sympathica ao seu genio, desviou-se escapando-se.
Ainda tornaram á terra querendo responder, como convinha, as abáfas de um mouro que lhes dissera que na aguada eram esperados como convinha. Lá chegando viram uma palissada forte trançada com chamiça por traz da qual a mourisma se escondia despedindo frechas e pedras que lhes saiam das fundas com soído agudo; mas foram taes os destroços que fizeram as béstas e as bombardas que, em pouco, estava a praça livre e os inimigos, de longe, bramiam e ameaçavam.
Voltando a bordo ainda fizeram presa - tomaram uma almadia do xerife que ia abarrotada de pannos e outra onde seguiam quatro negros. Apercebidos para o mar de novo fizeram-se ao largo fundeando diante dos ilhéos de S. Jorge d'onde partiram, tres dias depois, com ventos brandos.
Succedendo avistarem umas ilhas e havendo o piloto mouro, com perfidia, afíirmado que era boa terra, para lá velejaram achando-se em presença de áridos desterros e tanto se accendeu o capitão mór em fúria que, fazendo descer o mentiroso, alli lhe foram as roupas arrancadas e, com calabretes, dois homens açoitaram-o.
Aos seus gritos lancinantes respondiam os da frota com apupos e, para a memoria desse exemplo, deixou o capitão ao triste paramo o nome de ilha do Açoutado.
Recolhido o mouro,a gemer, com o lombo retalhado, fez-se sorumbatico, negando-se a responder aos da companha que o picavam com remoques.
A' vista de duas ilhas cercadas de bai- xios,onde o mar espumava, arrebentando, foi de novo o mouro interrogado dizendo então, com desfaçada calma, que já iam longe de Quilôa, terra que era de christãos e farta. Com essa noticia assanhou-se tanto o Gama que esteve para submetter ao supplicio o traiçoeiro e, se os ventos e as correntes não se houvessem tão obstinadamente opposto, teriam as naus retrocedido ao porto mencionado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.