Por Lima Barreto (1911)
O deputado, com essas comissões da mulher, já ganhara uma certa prática dos livros e matara um pouco em si a aversão que sempre sentira por eles. Só julgava perdoáveis aqueles que lhe serviam à carreira, os outros julgava que deviam ser queimados.
Passava freqüentemente pelas livrarias, comprava um e outro, dava-os à mulher que sempre tivera o hábito de ler. E ela lia poetas, lia os romances, e foi alargando o campo de leitura. Deste e daquele modo foi completando a sua instrução, adquirindo essa segunda que as mulheres, no dizer de Balzac, só adquirem com um homem. Apanhara bem a relação que há entre a vida que não vivera e o livro que lia: entre a realidade e a expressão.
Numa tinha o cuidado de não dizer aos indiscretos que os livros eram para a mulher; e gostava daqueles encargos, mirando às vezes as estantes da esposa com íntimo orgulho.
O marido fora atender uma visita; ela abriu o livro que trazia marcado e seguro em uma das mãos e pôs-se a lê-lo sentada à mesa de jantar.
Numa que estava completamente preparado para sair, não se demorou em ir à sala. Nela encontrou uma elegante senhora de quarenta anos, luxuosamente de luto, irrepreensivelmente espartilhada, muito alva, com uns lindos olhos negros que mais se encheram de brilho e sedução quando disse:
— O Doutor há de desculpar-me tê-lo incomodado agora, mas...
— Não, minha senhora. Prefiro mesmo ser procura do à esta hora, porque à tarde, ou mesmo à noite, estou quase sempre ocupado com estudos, lavrando pareceres... Faça o favor de sentar-se... Os deputados trabalham muito, minha senhora.
Os dois sentaram-se, e a dama tomou uma posição natural e irrepreensível, como se posasse para o retrato.
— Sei bem, Doutor. Sei perfeitamente. Meu marido já me dizia isso.
— Seu marido foi deputado, minha senhora?
— Não, Doutor. Sou viúva do Sr. Lopo Xavier.
— Oh! Conheci muito...
— Deu-se com ele?
— Não. De nome, era um belo talento. Queira aceitar os meus pêsames. — Obrigada, Doutor.
Calou-se um instante; com o dorso da mão esquerda, assentou melhor a blusa na cintura delgada e continuou a viúva mais melodiosa.
— O Doutor sabe que ele não deixou nada. Morreu pobre. Só deixou a casa em que moramos, o montepio, muito pequeno, e quase nada mais... Não nos é possível viver com isso, tudo está tão caro, Doutor, que requeri ao Congresso uma pensão.
Pronunciou as últimas palavras adoçando as sílabas com uma leve inflexão de sofrimento.
Numa perguntou:
— Muitos filhos, minha senhora?
— Um, uma filha.
— Julguei que fossem mais. Os jornais, se não me engano, disseram...
— São do primeiro casamento. Estão maiores, os filhos; e a filha, casada.
A senhora alongou o busto e explicou imediatamente:
— Não é justo, Doutor, que o governo deixe na miséria a viúva e a filha de um homem que tanto trabalhou pela pátria. Foi propagandista da República, bateuse pela abolição...
— Sei bem disso, mas esse negócio de pensão... esse negócio de pensão...
A senhora já falou com o senador Bastos?
— Já. Ele me disse que dava o voto dele.
— Vou ver.
— Dão-se tantas. Não deram à viúva de um calafate que morreu no incêndio de um navio de guerra? Meu marido foi um juiz íntegro...
— Não há dúvida, minha senhora; mas houve grande dificuldade em dar-se à viúva daquele general...
— Ah! Doutor! O montepio é muito grande; não é como o nosso, viúva de civis.
Numa passou o olhar pela sala e demorou-se um instante olhando o retrato do avô de sua mulher. Notou-lhe a expressão de energia, a agudeza do olhar e considerou depois a espessa moldura dourada. O legislador ia falar, mas a viúva tomou-lhe a palavra.
— É de toda a justiça, Doutor, o que peço.
— Não há dúvida, minha senhora! Não há dúvida! Conte comigo, minha senhora.
A viúva levantou-se e, estendendo a mão irrepreensivelmente enluvada, despediu-se:
— Obrigada, Doutor. Obrigada. E, sem querer incomodá-lo mais, desde já lhe agradeço muito o favor que me vai prestar.
Encaminhou-se para a porta e a marcha fez que ondas de essências caras envolvessem o doutor carinhosamente.
Ao pisar no patamar da escada, arrepanhou gentilmente as sedas da saia, voltou-se e cumprimentou, sorrindo, o deputado, que a levara até aporta da entrada.
Edgarda tinha continuado, na sala de jantar, a leitura do seu querido Anatole France. Relia o volume e se detivera na frase em que um velho acadêmico, depois de cochilar um tanto, afirma: “Rassurez-vous, madame: une comète ne viendra pas de si tôt heurter la terre. De telles rencontres sont extremement peuprobables!.
Lembrou-se bem do fim do almoço e ficou segura de que o fim do mundo estava indefinidamente adiado.
Tendo-se despedido da viúva, Numa voltou à sala de jantar, já com o chapéu na mão, para sair. A mulher perguntou.
— Quem era essa senhora?
— É a viúva do Lopo Xavier.
— Que queria ela?
—O meu voto para que lhe fosse concedida uma pensão que requereu.
— Prometeste?
— Prometi.
— E o Bastos? — Não se incomoda — Tu a conheces?
— Não.
— Pois saibas tu de uma coisa: ela é rica, não muito, mas tem com que viver.
— Quem te disse?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.