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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

O coração, inclinado sobre o abismo, bate em vão, porque toda a sua força perde-se no vácuo, como a da hélice, quando o navio mergulha no côncavo das vagas.

O navio prossegue, singra mar em fora, vai a novos rumos, a novas praias. O coração, de que lhe serve bater se não sai do vazio da saudade?

Mas é preciso viver... Pois seja! Que o coração faça o seu ofício:

Sofra! Mas viva! Mas bata Cheio, ao menos, da alegria De viver, de viver!

O QUE RESTA

Leva a tempestade o ninho e a ave, órfã e desabrigada, esvoaça tonta e aflita. Vai de árvore a árvore, salta de ramo em ramo ansiosa; eleva-se no ar, libra-se em pairo, torna ao chão, olha, pesquisa e, do que foi, nem a mais tênue achega encontra.

Dolorida, ainda que tudo se lhe balde, revoa em volta da árvore em que teve o pouso e a prole, até que, de todo desanimada, abala, fugindo ao sítio da desventura.

Longe, porém, em verdes silvas, cantando aqui, ali palhiço e folhas, tece outro ninho, reinstalase em tépido aconchego e dorme até que rompe a madrugada, e ei-la desperta, pronta para voar de novo, cantar ao sol, feliz.

Teu nome!

Anda de boca em boca como, de ramo em ramo, voa e revoa a ave desditosa. Ouço, a todo o instante, o doce nome ao qual dantes respondias. Mas o ninho em que ele vivia foi-se levado pela tempestade, caiu da árvore do amor, desfez-se em pó no chão.

Debalde soas, pobre nome! Não és mais que som. Andas nas falas, voas nos suspiros, sinto-te nas lágrimas.

Isso, porém, que monta se não assentas, porque o corpo, que era o teu pousadouro, desapareceu para sempre.

O desespero da ave cessa desde que ela refaz o ninho em outro sítio. Teu nome, esse... ai! de nós! nunca mais se firmará na vida, andará de boca em boca, de lembrança em lembrança em nossa saudade, como a ave, de ramo em ramo, nas árvores da floresta, mas sem poder fazer de novo o ninho, reinstalar-se e adormecer, para sair com a luz da manhã, reentrar na vida alegremente, ao sol.

Pobre nome! E é tudo que resta do que se foi na tormenta.

CONSOLAÇÃO

Já entrando no gabinete, detive-me, porém, à porta, comovido com aquele culto suave vendo-a escolher no ramo que, todas as manhã, lhe é levado pelo florista, as mais belas rosas, de preferência os botões com que ornamenta o retrato do filho amado, posto entre o grande tinteiro de bronze e a caixa dos cigarros.

Deixei-me estar quieto como se assistisse a uma cerimônia religiosa. E outra coisa não era aquele ofício de saudade, diante da mesa que fora o altar em que ele estivera exposto toda uma noite, entre as colunas flamejantes dos ciriais, com um crucifixo sobre o peito, e cercado de flores.

Com que enlevo ela colocava uma a uma no vaso, as rosas escolhidas!

Inclinava a cabeça para contemplá-las, a ver se estavam bem. Endireitava uma, chegava outra mais ao centro, punha os botões às bordas para que desabrochassem livremente, sem empeço. Por fim, tomou o retrato delicadamente, a mãos ambas, chegou-o aos lábios e reteve-o, muito tempo num beijo. Depô-lo no lugar próprio e pôs-se a falar baixinho.

De repente, em ímpeto de desespero, ajoelhando-se, com os braços estendidos sobre a mesa, de mãos postas, suplicava... O que? E, por entre lágrimas, agitada por soluços, a voz saía-lhe humilde, entrecortada e aflita.

Que diria a pobre mãe naquela ascese dolorosa?

Adiantei-me pé ante pé. O alto tapete abafava-me o rumor dos passos e assim, sem ser sentido, pude chegar até junto dela, e ouvi-la.

Rezava. A Deus? Não, ao espírito do filho. Rezava diante da imagem da sua grande, infinita saudade, pedindo-lhe o milagre da sua presença, um aceno, que fosse, do Além, para consolo da sua alma vazia.

Senti com ela, e, docemente, para não assustá-la, chamei-a.

Apesar da meiguice com que a tirei do arroubo, sobressaltou-se, estremecendo assustada. Ajudei-a a levantar-se, passei-lhe um braço pela cinta e, beijando-a na fronte, disse-lhe compadecido:

- Falavas-lhe? - Ela fitou-me com os olhos rasos de água. - Também eu converso com ele,disse-lhe - não como tu, dirigindo-me ao seu retrato - converso com ele dentro de mim: são as nossas almas que se falam. Tu queres o absurdo.

- Como absurdo?

- Sim. Queres que uma sombra te ouça; que o nada te responda. É absurdo. O retrato é umsimples cartão de visita, lembra-nos a sua passagem, só isto; ele, ele mesmo, paira em volta de nós como a luz, envolve-nos como o ambiente, penetra-nos como o ar que respiramos. Eu sinto-o. Juro-te que o sinto e o que talvez te pareça indiferença, é tranqüilidade que tenho pela certeza em que estou firmado de que o não perdi de mim.

- Também eu o sinto - suspirou ela; - mas quisera vê-lo, ainda que fosse por um segundo. Queele me aparecesse em um relâmpago e eu não sofreria mais. Por que não havemos nós de ver os nossos mortos? Quando conseguiremos passar da sombra para a claridade do Além! Deus devia ser bom para as mães...

- Deus é bom.

(continua...)

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