Por Coelho Neto (1906)
— Deus te acompanhe! murmurou a velha.
Ele esteve um momento indeciso, a pensar nos vizinhos, imaginando uma resposta para os que lhe perguntassem pela irmã, mas resolvendo-se, abriu a porta e saiu, de cabeça baixa, como preocupado, para evitar os cumprimentos.
A cidade, depois da noite de chuva, muito arejada e lavada, tinha um aspecto asseado e agradável. O sol tépido brilhava num puro azul e, pelos telhados vermelhos do casario, aqui, ali, clarabóias dardejavam ofuscantes. Um realejo melancólico resmoneava ao longe. Paulo atravessou a rua sem voltar os olhos. Ouvia vozes na vizinhança — uma mulher que silvava psius! os gritos frenéticos de uma criança, latidos de cães. Quando dobrou a esquina sentiu-se aliviado, tranqüilo, como se houvesse escapado a um perigo; moderou o andar.
No quartel estrondava um dobrado entusiástico. Instintivamente foi ritmando os passos pela música; de repente, porém, como se se sentisse observado, fez uma leve parada e seguiu devagar, fugindo aos compassos, até que se achou diante da estação Central.
Gente escoava em massa para o largo, chalrando: pequenos apregoavam jornais, perseguindo os passageiros que chegavam dos subúrbios. Homens, sentados ou acocorados diante de cestas de frutas, acamavam maçãs rosadas ou conversavam alegremente. Grandes tabuleiros de doces atraíam a garotada, os doceiros apregoavam, afugentando as moscas que esvoaçavam em torno dos pães louros, lentejoulados d'açúcar cristalizado e os engraxates, de joelhos junto das caixas, que batiam, chamavam os transeuntes. Bondes faziam a curva, outros seguiam cheios e os de São Cristóvão cruzavam-se, apinhados, com gente nos estribos.
Os carros, em fila, estendiam-se ao longo do terreno vago e em torno de um quiosque cocheiros discutiam em algazarra; outros, atracados, mediam forças ou gingavam em meneios capoeirosos, enquanto um pequeno, junto a um dos carros, estalava um chicote, rindo-se quando a água de uma poça espirrava para os lados, lamacenta e negra.
Os montes, muito azuis, tinham uma nova alegria. A Tijuca, desanuviada, cravava o seu cimo no céu; e o parque em frente, denso e verde, parecia de um arvoredo tenro: lisa era toda a folhagem, como nascida naquela manhã; a grama verdejava viçosa, como se por ali houvesse andado a primavera mondando as plantas, recolhendo versas e ramalho para mostrar, em todo o esplendor da beleza, a sua residência mais amada.
Ia atravessando a rua quando uma matula de garotos arremangados, descalços, brandindo paus, aos berros, abalou da estação, a correr em direção ao quartel, donde partiam, vibrando na serenidade da manhã luminosa, clangores fortes de metais. Deteve-se, empolgado por aquele troar de guerra, que os ecos iam prolongando gloriosamente. Era um batalhão que saía, precedido pela cainçada lépida, que ladrava.
A molecada esperta, aos saltos, corcoveando, em destros arremessos, bradava atirando, desviando golpes, numa excitação de luta e a banda rompeu estrondosa como uma muralha resplandecente que se movesse, seguindo para o campo fronteiro, onde já se haviam reunido grupos de curiosos.
Apareceram depois os oficiais a cavalo — um dos ginetes, negro e luzidio, caracolava garboso: logo depois o primeiro pelotão, com as baionetas rútilas inclinadas, formando um revérbero e passavam, com intervalos, serenamente, pelotões sobre pelotões, até que houve um claro e a bandeira verde, solta ao vento, palpitou vitoriosa. Retiniram cometas, novos pelotões desfilaram: por fim vários soldados, num bando desordenado, saíram na coda e um carneiro, lanzudo e gordo, precipitou-se rebolando entre cães que ladravam, engalfinhando-se, numa alegria estróina. Bondes esperavam travados até que o batalhão atravessou a rua airosamente.
A um brado do comandante, que sofreava o corcel, os pelotões recuaram ficando toda a tropa em linha, imóvel e direita. Súbito, num relâmpago, moveram-se as baionetas fazendo uma linha perpendicular, cintilante. Uma pancada atroou, os tambores rufaram e um dos oficiais, à rédea frouxa, partiu em revista à formatura.
Os passageiros voltavam-se nos bondes para olhar e Paulo, entretido, acompanhava as manobras quando se lembrou do Mamede. Lançou um olhar rápido ao relógio da estação — eram oito e meia. Foi-se lentamente até ao portão do parque, sempre a ouvir a música guerreira que estrugia como um hino forte à luz magnífica do sol.
As aléias estavam ainda úmidas e marcadas de pegadas, mas que frescor na folhagem! O lago, liso e cristalino, refletia o céu e um ganso, alvo de neve, nadava sem mesmo frisar a água dormida. O relvado cintilava emperlado de gotas límpidas e um aroma silvestre de bosque virgem saturava o ar fino.
Ele seguia contemplativo, sentindo o hálito das árvores, cercado pela vegetação forte, refeita com a rega farta da noite.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.