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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Decididamente quando Eros nasceu a gramática ainda estava em substância informe. Passou-lhe o braço pela cinta e, com os olhos nela, disse: — Mas és tão bonita, minha cabocla, que os solecismos na tua boca parecem pérolas de estilo. Subitamente, carregando a fronte, em voz estentórica, simulando fúria:

— Diga-me, senhora... Quem era aquela montanha de suíças e óculos à cuja sombra gorda, a senhora ceava ontem no Bragança? Fale!

— Era um home, explicou dengosamente a rapariga, sentando-se.

— Um home... Deliciosa! E, inclinando-se, em tom infantil: — Dá beijoca a Neiva? Dá? Os lábios encontraram-se e o boêmio segredou a Anselmo, tocando na boca: — Já tenho um pretexto para ir amanhã ao escritório do Silva Araújo. Só então lembrou-se de apresentar a rapariga: — Olha, minha cabocla, apresento-te o meu amigo Anselmo Ribas, escritor. Vou logo dizendo a profissão para que não percas tempo com ele. Que vais tomar?

— Qualquer coisa.

— Não é bebida.

— Ora! escolhe você mesmo.

— Ah! queres que eu escolha? Atirou uma bengalada à mesa e trovejou:

— Garçom! Mercúrio para quatro! Houve uma estrepitosa gargalhada; a própria rapariga, que não compreendera o dito, riu, dando com o leque leve pancadinha no ombro do boêmio. O caixeiro serviu duas garrafas de cerveja.

Neiva bebeu sofregamente: tinha pressa, não podia deixar a mulher amada morrer de ansiedade no pátio do Recreio e despediu-se azafamado. A rapariga ergueu-se também.

— Até logo! Justamente terminava o ato numa explosão de palmas. O povo escoou para o jardim. Encheu-se o tablado e os caixeiros atropelavam-se, acudindo aos berros, às bengaladas que estalavam nas pequeninas mesas de ferro. Caíam bancos e, na passagem apinhada, cruzavam-se cocottes faceirando, respondendo aos galanteios com muito langor nos olhos e muitos requebros de quadris. Estouravam garrafas, subiam vozes confusas, entrecortadas de risos num zoar atordoador de colmeia atacada.

— Vamos dar uma volta? convidou o Duarte bocejando.

— Vamos; concordou Anselmo. E os dois levantaram-se caminhando molemente, acotovelando mulheres que tresandavam a essências. Mas a campainha ressoou de novo e começava o segundo ato, quando o Duarte, atristurado, com a bengala às costas, depois de haver falado, com muitos suspiros, de um amor infeliz que o havia de levar ao suicídio ou a Fernando, pôs-se a recitar baixinho, enquanto, em lento andar, percorriam a passagem deserta e a multidão ria às escâncaras das pilhérias do Vasques, uma poesia cheia de luar e de rouxinóis, com um pastor triste e pastora arisca que eram ele a divina criatura que o trazia amofinado obrigando-o àquelas devassidões noturnas. Que tal?

Anselmo comparou-o a Musset.

— Ah! Musset! Musset!...

Vous qul volez là-bas, légères hirondelles...

Mas mastigou o verso imediato e, enternecido, de olhos no chão, cantarolou:

Bacalhau feito na brasa

Com cebola de Linhães,

Tudo se encontra na casa, Na casa do Guimarães...

O estudante lançou ao poeta um olhar esgazeado.

— Que é isto?

— É o hino da bacalhoada. Não conheces a casa do Guimarães? Bacalhau, vinho verde, papas à portuguesa, iscas e dispepsias?

— Não, não conheço.

— Ah! meu amigo, é o meu Lethes. Ali é que vou procurar esquecimento para as minhas mágoas. Aquela ingrata dá comigo em todas as tascas e pocilgas desta cidade. Estou ainda curando-me de uma indigestão que apanhei por causa dos olhos dela. Ah! O amor! O amor...

... feito na brasa

Com cebola de Linhães...

Mas Ruy Vaz apareceu brandindo a bengala, colérico.

— Decididamente é melhor ser calceteiro ou condutor de bonde do que homem de letras em um país como este.

— Que houve? — perguntou o Duarte.

— Ora! a minha peça. O senhor Heller entende que devo arranjar umas coplas e um jogo para a comédia. Uma comédia de costumes, que joga com cinco personagens... O homem quer, a todo transe, que venham negros à cena com maracás e tambores, dançar e cantar. Imaginem vocês: um antropologista puxando fieira e uma senhora, que vive a cuidar a sua árvore genealógica como quem cuida de uma roseira, que mostra, com enfunado orgulho, os retratos dos avós a quantos freqüentam a sua casa, a cortar jaca desabaladamente. É ignóbil! Revolta! E querem teatro...

— E tu?

— Eu! Não cedo uma linha! A peça já está em ensaios e há de ir como a escrevi: sem enxertos. Diz ele que o público não aceita uma peça serena, sem chirinola e saracoteios... Mas que tenho eu com o público? Cruzou os braços e, ferrenho, encarou o estudante como se ele fosse a representação do próprio público ignaro que exigia aquelas misérias. Não hei de estar a fazer concessões vergonhosas simplesmente porque o nosso público, saturado de vícios, entende que o teatro deve ser como um templo devasso. Isso não!

— Mas a peça cai, observou prudentemente o Duarte.

(continua...)

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