Por Raul Pompéia (1880)
A retirada não era fácil. Os dous negros mostravam disposições de galgar a castanheira. Felizmente, a um sopro do vento, as chamas se ativaram, crepitando estrondosamente, e uma nuvem de grossa fumaça os envolveu protegendo os exploradores da vista dos bandidos.
Assim ocultos, puderam da castanheira passar a outra árvore e, descendo corajosamente alcançaram o chão.
CAPÍTULO X
A VOLTA
Achando-se em terra, os exploradores tomaram apressadamente o caminho de S. João do Príncipe.
Esta povoação estava mais próxima que a casa de Eustáquio e portanto era mais fácil de alcançar.
Conquanto já fossem três horas, a escuridão na mata ainda era absoluta, o que forçava os engajados de Eustáquio a seguirem tropeçando e ganhando terreno com dificuldade.
Doze passos não eram dados quando ouviram um barulho. Julgando ser ilusão, pararam e escutaram... Alguém os seguia. Não havia dúvida... Subitamente luziram archotes. Os malfeitores os perseguiam.
— Depressa! depressa! disse Eustáquio.
Foi inútil a incitação. Os caboclos continuavam ligeiros através do mato.
O negrume da noute retardava-lhes um pouco a marcha todavia os escondia dos perseguidores, que alumiados pelos archotes se aproximavam rapidamente.
Pequena distância separava um grupo do outro. A cada instante Eustáquio esperava uma luta. Em uma ocasião chegou a parar com os caboclos, e mandou aprontar armas, mas também nesse momento os malfeitores pararam e os exploradores ouviram a voz arrogante do mesmo homem branco da clareira:
— O patife, disse ele, vai entrar no povoado... e está livre. Vai nos fugir como tem fugido sempre.
"Voltemos!"
O marido de Branca não compreendeu de quem falavam os seus inimigos, e somente conheceu que tomavam os exploradores por uma só pessoa e renunciavam a persegui-la.
— Isto é melhor, falou ele consigo mesmo, ao ver os malfeitores se afastando pouco a pouco.
Instantes depois saíam, Eustáquio e os seus companheiros, da floresta. Sentiram o rumor vago e sereno que durante a noite parece pairar na superfície sossegada dos grandes rios. Estavam à margem do Iapurá. O lado oposto do rio aparecia como uma sombra horizontal e se confundia com as águas. A esquerda os exploradores tinham o povoado. Nenhuma luz brilhava nas janelas, dos seus casebres.
Tudo dormia.
Entraram na povoação possuídos desse respeito irresistível que se apodera de que vagueia a horas mortas.
O silêncio da noute nenhum dos homens teve ousadia de quebrar.
Costearam o rio e algumas casinhas. Chegaram ao largo principal. Nessa ocasião um paraense divisou através das frestas de uma porta mal fechada a chama sangüínea de uma candeia.
Era na morada do padre Jorge.
Eustáquio bateu com as unhas nas tábuas carunchosas da porta. A porta cedeu, apresentando-se logo o sacerdote.
Ambos, sem outros cumprimentos, abraçaram-se com efusão.
— Donde vens, querido Eustáquio, perguntou o padre, coberto de lama, coberto de rasgões, e coberto de armas?... E acompanhado dos meus paraenses? Quase não te conhecia!
"Assenta-te ao meu lado e me conta o que houve...
"Vós todos estais sinistros!"
— As circunstâncias o exigem, respondeu Eustáquio.
"Vós sabeis dos tristes acontecimentos que tem havido em minha casa, mas não sabeis que na manhã de ontem... pois que são três horas da manhã de sexta-
feira..."
— Oh! interrompeu o padre Jorge, julgava que ainda fossem dez horas da noute de quinta-feira... estava tão entretido na leitura da história de Napoleão Bonaparte...
E apontou para um alfarrábio que estava aberto sobre uma velha mesa junto da lâmpada.
— Como dizia, continuou Eustáquio, na manhã de ontem recebi por um modo extraordinário aviso de que ia ser atacado pelos meus velhos perseguidores.
"Ora, isto assustou-me, e decidi-me a empreender uma viagem de reconhecimento, que teve os melhores resultados, como ides ver:
"Depois de percorrer a mata encontrei os tratantes.
"Uma árvore serviu-me de observatório e dela me foi possível ouvir dizer que a minha morada, hoje, ao romper do dia vai ser assaltada pelos miseráveis, que são em numero de nove ou dez."
— É medonho! balbuciou o padre.
— Não é só isto. Os bandidos pretendem roubar para o chefe... Quem?! a minha pobre Rosalina... Infeliz criança!
— Eustáquio, acreditas que eles ousem?
— Acredito, sim! Nunca pensei que eles se atrevessem a escalar-me grades em pleno dia e entretanto a coitada da Rosalina, na janela da casa, escapou de ser morta... por milagre!
"Morreria, se não fosse a intervenção de um salvador misterioso." O sacerdote prendeu melhor os óculos e continuou atento.
— Eles, que têm a coragem de penetrar quase nas minhas salas, podem facilmente assaltar-me... Mas, meu padre, vai se fazendo dia, e eu quero receber convenientemente os meus inimigos, por isso adeus. Entrei aqui para descansar e já estou pronto.
O padre tomou a mão de Eustáquio, não tanto para saudá-lo como para prendê-lo e não o deixar sair.
— Eustáquio, disse ele, tu não irás sem que eu vá também.
"Tens somente seis contra nove ou dez. É pouca gente. Eu serei mais um dos teus. E talvez não seja ainda suficiente."
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.