Por Raul Pompéia (1882)
O lacaio fez uma continência e retirou-se apressadamente.
O duque, do alto da sua estatura, deitou majestosamente por cima da cabeça dos circunstantes um vagaroso olhar para os gramados do parque verdejante à luz da formosa manhã; depois de algum tempo, voltou-se para o filho e para o chefe de polícia e disse-lhes muito friamente:
— Se o negócio é grave, é melhor conversarmos dentro de casa...
O chefe de polícia, meio enfiado por ver o pouco caso com que o duque tratava um negócio considerado grave pela polícia, teve de abrir passagem para o senhor de Bragantina, que, havendo parado com a chegada do marquês d’Etu, punha-se de novo a caminho para o palácio.
O príncipe dos cortiços, sempre exaltado e nervoso, teve de interromper umas coisas que dizia vivamente o dr. Trigueiro, para igualmente deixar seguir o duque.
Formou-se logo uma espécie de caravan imensa, que se foi alongando na direção da morada do duque de Bragantina.
À vanguarda, caminhavam os senhores da quinta, o marquês d’Etu, o dr. Louro Trigueiro, o mordomo do palácio e o amigo inseparável do duque, o seu médico, o dr. Jassey. Seguiam-se dois delegados de polícia, soldados, criados e trabalhadores e, no extremo da marcha, um bando de mulheres, tagarelando muito, com uns filhinhos redondos e sujos enganchados ao quadril e outros agarrados às saias.
Por cima da procissão, nadava um zumzum enorme e confuso.
O duque caminhava em silêncio, olhando tranqüilamente para o arvoredo do parque, acompanhando com a vista as linhas caprichosas que as andorinhas traçavam no céu. A duquesa, com a dificuldade própria dos anos, aumentada pelos padecimentos, suspendia-se aos braços do esposo e olhava para o chão, seguindo calada como o duque.
No pórtico do palácio a caravan dividiu-se: os que iam à frente entraram no palácio. Os da retaguarda ficaram quase todos parados em grupos, diante das escadarias do edifício.
Havia lacaios do duque, jardineiros do parque e moradores da aldeola da quinta.
Falavam muito, mas à meia-voz, como em respeito ao palácio.
— Digam lá o que bem quiserem... Para mim, o ladrão das jóias é gente da casa — afirmava uma mocetona robusta e feia, remexendo os ombros e as gordas cadeiras...
— Eu também acho — concordava receosamente outra mulher de seus quarenta anos, com as mãos cruzadas sobre o ventre e um lenço amarrado à cabeça.
— Mas a corda da janela? — objetou de mau humor um lacaio.
— Ora, a corda! — replicou a mocetona. — A corda está lá porque a penduraram!
— Quem pendurou? Não foi quem teve necessidade de subir pela janela aberta?
— Ora qual, seu José, então de dentro não se podia atirar a corda?... Até aquele nó que lá está, não era possível que se desse, sem se achar muito à vontade debruçado na janela.
— Mas quem lhe disse, sua bruxa...
— Bruxa... Olha lá, hein!...
— Quem lhe disse que o ladrão deu o nó, estando cá embaixo?... Antes de dar o nó forte, ele atirou a corda, que é bem comprida, passou uma das pontas por cima do gancho, deu uma laçada com as duas porções, para a corda não escorregar; trepou até o peitoril...
— É uma história muito bonita, é; mas eu não acredito nada.
— Ao menos foi a explicação que deu o Inácio, quando descobriu o roubo — disse um velho jardineiro, entrando na conversa.
— Eu não quero falar mal dos outros — replicou ainda a teimosa mocetona — mas isto até faz desconfiar que um ladrão de fora havia de saber onde estavam as jóias?
— Isto lá não — contestou a mulher de lenço na cabeça, com o seu ar toleirão —, isso lá não... os ladrões sempre sabem onde estão as coisas; a prova é que roubam... Isso lá não
— Isso, isso, o quê, minha tola? — interrompeu a mocetona. — Você não sabe o que está dizendo... Não se meta aqui...
— Ah! sinhá Chica, não seja tão malcriada com a gente...
— Pois eu tenho culpa de que você seja idiota?...
— Idiota, não!... Por causa de umas sirigaitas sem coração é que a pobre da Emília está lá para morrer... Todo o mundo também a chamava de idiota... mas eram os malvados...
— Ora, é muito boa! — tornou a sinhá Chica, pondo as mãos na cintura como as asas de uma jarra. — É muito boa a Emília estar atrapalhada com a sua tísica! Não sei como se há de culpar os outros...
— Você não se lembra daquela vez que ela chorou por causa da
Conceição?...
— Pois a Conceição veio cá com desaforos comigo... apanhou...
— É! É!... Mas se o seu Januário não fosse um pobre velho, você não havia de fazer mal à criança...
— Vejam só!... ah! ah!... O seu Januário é o primeiro a xingar a nora de maluca e a descompor a Conceição... Demais, a Conceição não tem nada com a Emília... Não é filha... Não é sobrinha... Ainda se eu desse no menino...
— Está bom! Está bom!... Não quero questões com a senhora... — Que me importa!...
Enquanto as duas mulheres discutiam a sua questão pessoal, em outros grupos ainda se debatia vivamente o negócio do roubo.
A crença geral era que o ladrão das jóias não viera do exterior.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.