Por Padre Antônio Vieira (1670)
116. Partindo-se Cristo para o céu, mandou a seus apóstolos e discípulos que se recolhessem a Jerusalém, e que assim esperassem a vinda do Espírito Santo, que não tardaria muitos dias. Fizeram-no assim recolhidos ao cenáculo. E S. Pedro, que já tinha recebido a investidura de Príncipe da Igreja, sem esperar que o Espírito Santo viesse, a primeira e única coisa que logo fez, foi prover, como proveu em S. Matias, o lugar que estava vago pela morte de Judas. Ninguém haverá que se não admire desta notável resolução e ação de S. Pedro em tal lugar e tal tempo. O tempo em que os apóstolos se haviam de repartir pelo mundo não era chegado, nem havia de ser, como não foi, senão daí a alguns anos, depois de compostos e bem assentados os fundamentos de um tão grande edifício, como era o da nova e universal Igreja. Pois por que não dilata S. Pedro este provimento, ao menos por alguns dias, e por que não espera que desça o Espírito Santo sobre ele, para fazer com mais infalível acerto a eleição daquele lugar? Porque tanto importa, e tanto entendeu S. Pedro que importava que os lugares não estejam vagos, nem por um momento. Oportet foi a primeira palavra com que começou a sua proposta o grande Príncipe do Apostolado, e as últimas com que concluiu a sua oração: Accipere locum ministerii hujus et apostolatus, de quo praevaricatus est Judas, ul abiret in locum suum.15 Os que ali se achavam, como nota o evangelista, eram cento e vinte homens – que bastava serem homens para se temer algum inconveniente: – Erat autem curba hominum simul fere centum viginti (At. 1, 15). Os que se converteram e se lhes agregaram, no mesmo dia em que desceu o Espírito Santo, foram três mil: Et appositae sunt in die illa animae circiter tria millia (At. 2, 41). O número que depois acresceu foi muito maior, e em tanta multidão de gente, toda capaz de aspirar e pretender aquele lugar, se estivesse vago; bem se vê quão perigosa ocasião podia ser perturbar a paz e esfriar a união dos que convinha que fossem, como verdadeiramente diz o Evangelho que eram: Cor unum, et anima una.16 Pois, para prevenir este perigo, e os inconvenientes que dele humanamente se podiam temer, proveja-se logo o lugar – diz S. Pedro – e não esteja um momento vago; donde se seguirá que, vendo-o os presentes, e achando-o, os que vierem, provido, a todos se tire a ocasião de o pretender ou pedir. Nem se podia duvidar que o provimento, que parecia antecipado, e a eleição dele seria acertada, porque como S. Pedro, por razão do seu ofício, tinha segura a assistência do Espírito Santo – posto que o mesmo Espírito Santo desceu sobre todos visivelmente ao décimo dia – naquele mesmo dia desceu invisivelmente sobre S. Pedro, como já tinha descido, quando eficazmente lhe inspirou que não dilatasse o provimento.
117. Se assim o fizerem os príncipes seculares, a quem também por seu modo não falta a assistência do Espírito Santo, esta será uma discreta política, com que livrem aos pretendentes do trabalho ou tentação de pedir, e a si mesmos das ocasiões de negar. A maior e mais dificultosa ocasião que tem havido neste gênero foi o provimento da sucessão de Davi. Queria Davi, e sabia, que era conveniente ao bem do reino que o seu sucessor fosse Salomão, e que assim o tinha Deus decretado. Contra isto estava ser Salomão ilegítimo e menor, e Adonias, seu competidor, não só legítimo; mas de todos os filhos de Davi, que então viviam, o primogênito, e como tal, assistido do séquito comum do Eclesiástico, e popular, e de grande parte da milícia. Era chegado o negócio a termos que, em um banquete, que naquele dia tinha dado Adonias a todos os príncipes e senhores da sua parcialidade, já se lhe faziam os brindes à saúde de el-rei. Teve notícia disto naquela mesma hora Davi, e que resolução tomaria? – Sele-se, diz, a minha mula – que eram os cavalos de que então usavam os reis – monte nela Salomão, e, ungido pelo profeta Natã, saia por Jerusalém com trombetas e atabales diante, e digam todos: Viva el-rei. – Assim se executou no mesmo ponto. Ouviu-se no banquete com assombro o som das trombetas, soube-se o que se passava, retiraram-se cheios de medo os convidados, e todos no mesmo dia beijaram a mão a Salomão. Mas que razão deu de si Davi, e do que tinha mandado? Como respondeu ao direito e pretensão de Adonias? E como enfeitou ou adoçou o não de o não ter nomeado a ele? Nenhuma coisa lhe disse, nem teve necessidade de lha dizer, porque, vendo Adonias o lugar provido, compôs-se com sua fortuna, foi beijar a mão a Salomão, e nem a ele, nem a seu pai replicou uma só palavra. Tanto importa o pronto provimento dos lugares, para pôr silêncio à ambição dos pretendentes e também ao não dos príncipes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.