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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

82. Eis aqui as condições com que suponho que nos oferece o demônio o seu contrato. Parece-vos que são boas condições estas, e dignas de se aceitarem? Um homem com cem mil anos de vida seguras, sem dor, nem enfermidade; um homem monarca universal de todos os reinos do mundo, com certeza de não se mudarem; um homem multiplicado em todas as partes do mundo, para poder gozar no mesmo tempo as delícias de todo ele. Parece que a imaginação não pode inventar mais, nem querer mais o desejo. Dizei-me agora: se este contrato vo-lo oferecesse o demônio, assinado por Deus, aceitaríeis esta vida, esta majestade, estas delícias de cem mil anos, com condição de, no cabo deles, perder a alma, e ir ao inferno? É certo que nenhum de nós aceitaria tal contrato. Ao menos, eu não. Pois se não aceitaríamos ao demônio um tal contrato, como aceitamos tentações tão diferentes? Dizei-me: quando o demônio vos tenta, promete-vos larga vida? Antes são muitas vezes tais as tentações que sabeis de certo que, caindo nelas, quando menos, haveis de encurtar a vida e perder a saúde. Mais. Quando o demônio vos tenta, promete-vos reinos e monarquias universais do mundo? Não: um governo, uma privança, um título, um morgado, uma herança e outros interesses menores. Mais. Quando o demônio vos tenta, multiplica-vos a capacidade dos sentidos, para que possais gozar com maior largueza e sem limite os gostos e delícias do mundo? Nada disto. Pois se fora loucura e rematada loucura entregar um homem a sua alma por aquele contrato, que será entregarmo-la cada dia e cada hora por tentações de tanto menos porte? Por uma vaidade, por um desejo, por uma representação, por um apetite, que no instante de antes o desejais, e no instante de depois o aborreceis? Tomara que me respondêsseis a esta evidência, para ver que razão me dais.

83. Só uma vos pode ocorrer que tenha alguma aparência, e é o que nos engana a todos. Padre, entre aquele contrato e as tentações ordinárias do demônio há uma diferença grande. Consentindo naquele contrato, ficava eu perdendo a minha alma de certo; consentindo nas outras tentações, somente ponho a minha alma em dúvida, porque, depois de aceitar a tentação e lograr o que o diabo ou o apetite me promete, posso arrepender-me, e salvar-me. Primeiramente essa mesma conta fizeram todos os cristãos que estão no inferno. Mas sem chegar a essa suposição, tão leve negócio é pôr a alma e a salvação em dúvida? Aprendamo-lo do mesmo demônio, e torne a tentação a ser remédio. Quando o diabo tentou a Cristo, bem via que aquele homem, quem quer que fosse, depois de aceitar o partido e se ficar com os reinos do mundo, assim como se houvesse posto de joelhos diante da demônio, para o adorar, assim se podia pôr de joelhos diante de Deus, para pedir perdão e se restituir à graça, e salvar-se. Pois se isto era assim, por que lhe oferecia o demônio todo o mundo, só por aquela adoração, só por aquele pecado? Porque aquele pecado em um homem, ainda que lhe não tirava a salvação com certeza, punha-lhe a salvação em dúvida, e só por pôr em dúvida a salvação de uma alma, dará e dá o demônio todo o mundo. Pois se a demônio, que não é interessado como eu, dá o mundo, só por pôr a minha salvação, em dúvida, eu por que porei em dúvida a minha alma e a minha salvação, ainda que seja por todo o mundo?

(continua...)

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