Por Padre Antônio Vieira (1647)
Promissão, passaram pelo Mar Vermelho e pelo Rio Jordão, mas por um e outro a pé enxuto. E que Egito, que Terra de Promissão, que filhos de Israel, que Mar Vermelho, que Rio Jordão foi este? O Egito é o mundo, a Terra de Promissão é a glória, os filhos de Israel são os fiéis, o Mar Vermelho é o martírio, o Rio Jordão é o batismo, e passaram por um e outra milagrosamente a pé enxuto, porque só pelo Mar Vermelho do martírio, e só pelo Rio Jordão do batismo se pode passar à glória a pé enxuto, isto é, sem tocar as penas do purgatório. Mas com isto ser assim, debaixo das mesmas figurações de martírio e Batismo, acho eu que ainda nos deu mais o lado de Cristo, e foi mais liberal conosco nas graças da Santa Cruzada. Comparado o martírio com o Batismo, não tem conhecida vantagem: ambos se excedem um ao outro, e ambos são excedidos. O batismo, como é sacramento do princípio da vida, deixa-nos capazes de merecer, mas também capazes de pecar. O martírio, como se consuma com a morte e acaba a vida, deixa-nos incapazes de pecar, mas também incapazes de merecer. E nesta vantagem recíproca com que o martírio e o batismo se excedem e são excedidos, só poderá resolver qual é maior graça quem primeiro averiguar se é melhor o merecimento com perigo, ou a segurança sem merecimento, tão iguais ou problemáticas são as prerrogativas do batismo e do martírio comparados entre si. Mas comparados com as graças da Santa Cruzada, não há dúvida que a indulgência e indulgências plenárias, que tão facilmente, e por tantos modos se nos concedem nela, ainda têm circunstâncias de vantagem, com que não só igualam, mas excedem ao mesmo batismo e ao mesmo martírio. Igualam o batismo e o martírio, porque se o batismo e o martírio purificam e livram a alma de toda a culpa e pena, o mesmo faz a indulgência plenária verdadeiramente ganhada. E excedem o mesmo batismo e o mesmo martírio, porque a indulgência plenária é como o martírio, mas como martírio sem tormento, e é como o batismo, mas como batismo com repetição. Ora vede.
O martírio, como lhe chama a Igreja, é um compêndio ou atalho brevíssimo do caminho da glória, porque o mártir, sem dar mais que um passo, com um pé na terra e outro no céu, entra da morte à bemaventurança. Por aquela morte se lhe não pede conta da vida; por aquela pena se lhe perdoam todas as penas que devia por seus pecados. E posto que tivesse sido o maior pecador, no mesmo ponto fica santo. Grande felicidade por certo, e muito para desejar! Mas os mártires que assim passaram ao céu, por onde passaram? Uns por cruzes, outros por grelhas, outros por rodas de navalhas, outros pelas unhas e dentes das feras, e todos por tantos e tão atrozes tormentos, que muitos, por medo e horror de tão cruéis mortes, se escondiam e fugiam do martírio, e outros, estando já nele, por não lhes bastar a fortaleza e constância para sofrer, desmaiavam e retrocediam. Vede agora quanto mais fácil é ir direito ao céu por uma indulgência da Bula da Cruzada, que de cruz não tem mais que o nome. O mártir sobe direito ao céu, mas por tantos tormentos e tão arriscados; vós com a indulgência plenária também subis direito ao céu, mas sem tormento, nem risco. Por isso o sangue que significava o martírio, não saiu do lado de Cristo vivo com dor, senão do lado morto e insensível, porque as graças que manaram daquela fonte divina, se bem logram os privilégios de martírio, são martírio sem tormento.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.