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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Bem provado cuido que está com o horror deste exemplo, que nos devemos guardar e recatar dos homens, mais ainda que do diabo. Mas vejo que me dizeis que Saul era inimigo capitalíssimo de Davi, e que dos homens que são inimigos, bem é que nos guardemos com toda a cautela; porém dos amigos, porece que não. São eles homens? Pois ainda que sejam amigos, guardai-vos deles, e crede-me, porque os amigos também tentam, e de mais perto, e se vos tentarem, hão de fazer e poder mais que o diabo para vos derrubar. Nunca o diabo teve mais ampla jurisdição para tentar com todas suas artes, e com todo seu poder, que quando tentou a Jó. Tentou-o na fazenda, tirando-lha toda em um momento; tentou-o nos filhos, matando-lhos todos de um golpe; tentou-o na própria carne, cobrindo-o de lepra e câncer, e fazendo-o todo uma chaga viva. E que fez, ou que disse Jó? Dominus dedid, Dominus obstulit: sit nomem Domini benedictum.33 Paciência, humildade, resignação na vontade divina, graças e mais graças a Deus, dando testemunho a mesma Escritura, que em todas estas tentações não lhe pôde tirar da boca o demônio uma palavra que não fosse de um ânimo muito constante, muito reto, muito pio, muito timorato, muito santo: In omnibus his non peccavit Job labiis suis, neque stultum ali quid locutus est contra Deum.34 Neste estado de tanta miséria e de tanta virtude, vieram os amigos de Jó a visitá-lo e consolá-lo. Eram estes amigos três, todos príncipes, todos sábios, e que todos professavam estreita amizade com Jó. Ao princípio estiveram mudos, por espaço de sete dias; depois falaram, e falaram muito. E que lhe sucedeu a Jó com estes amigos? O que não pôde o diabo com todas as suas tentações. Fizeram-lhe perder a constância, fizeram-lhe perder a paciência, fizeram-lhe perder a conformidade, e até a consciência lhe fizeram perder, porque se puseram a altercar contra ele, e o argüíram, e o caluniaram, e o aportaram de tal sorte, que Jó deixou de ser Jó. Não só amaldiçoou a sua vida e a sua fortuna, mas ainda, em respeito da justiça e da Providência divina, disse coisas muito indignas da sabedoria e muito alheias da piedade de um homem santo, pelas quais foi asperamente repreendido de Deus. O mesmo Jó as confessou depois, e se arrependeu, e fez penitência delas, coberto de cinza: Insipienter locutus sum, idcirco ipse me reprehendo, et ago poenitentiam in favilla et cinere.35 Eis aqui quão pouco lustroso saiu das mãos dos homens o espelho da paciência, tendo saído das tentações do demônio vencedor, glorioso, triunfante. O demônio era demônio e inimigo; os homens eram amigos, mas homens; e bastou que fossem homens, para que tentassem mais fortemente a Jó que o mesmo demônio. As tentações do demônio foram para ele coroa; e as consolações dos amigos, não só tentação, mas ruína. E se isto fazem amigos sábios, zelosos da honra de Deus e da alma de seu amigo como aqueles eram, quando o vêm consolar em seus trabalhos, que farão amigos perdidos e loucos, que só se buscam a si, e não a vós, que estimam mais a vossa fortuna que a vossa alma, e que fazem dela tão pouco caso, como da sua?

(continua...)

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