Por Padre Antônio Vieira (1669)
Temos chegado, posto que tarde, à cegueira da terceira espécie, na qual estavam confirmados os escribas e fariseus, porque sendo tão cegos, como temos visto, não viam nem conheciam a sua própria cegueira. O cego que conhece a sua cegueira não é de todo cego, porque, quando menos, vê o que lhe falta; o último extremo da cegueira é padecê-la e não a conhecer. Tal era o estado mais que cego destes homens, dos quais disse agudamente Orígenes, que chegaram a perder o sentido da cegueira: Caecitatis sensu carentes. A natureza, quando tira o sentido da vista, deixa o sentido da cegueira, para que o cego se ajude dos olhos alheios. Porém os escribas e fariseus estavam tão pagos dos seus, e tão rematadamente cegos, que não só tinham perdido o sentido da vista, senão também o sentido da cegueira: o da vista porque não viam, o da cegueira porque a não viam. Argüiu-os Cristo hoje tacitamente dela, e eles, que entenderam o remoque, responderam: Nunquid et nos caeci sumos (Jo. 9,40)? Porventura somos nós também cegos? – Como se disseram: Os outros são os cegos, porém nós, que somos os olhos da república, nós, que somos as sentinelas da casa de Davi, nós, que temos por ofício vigiar sobre a observância da fé e da lei, só nós temos luz, só nós temos vista, só nós somos os que vemos. – Mas por isso mesmo era maior a sua cegueira que todas as cegueiras, e eles mais cegos que todos os cegos, porque não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego e cuidar que o não é.
Introduz Cristo em uma parábola um cego que ia guiando a outro cego: Si caeco ducatum praestet.22 O que ia guiado era cego, o que ia guiando também era cego. Mas qual destes dois cegos vos parece que era mais cego: o guia ou o guiado? Muito mais cego era o guia, porque o cego que se deixava guiar, via e conhecia que era cego, mas o que se fez guia do outro, tão fora estava de ver e conhecer que era cego, que cuidava que podia emprestar olhos. O primeiro era cego uma vez; o segundo duas vezes cego: uma vez porque o era, outra vez porque o não conhecia. São João no seu Apocalipse escreve uma carta de repreensão ao bispo de Laodicéia, e diz nela assim: Nescis quia miser es, et miserabilis, et caecus? Não sabes que és miserável, e miserável, e cego? Que lhe chame miserável porque era cego, bem clara está a miséria; mas por que lhe chama não só uma, senão duas vezes miserável: Miser, et miserabilis? Chama-lhe duas vezes miserável porque era duas vezes cego: uma vez cego, porque o era, e outra vez cego, porque o não conhecia. O mesmo evangelista o disse: Nescis quia miser es, et miserabilis; et caecus. Notai o nescis: era uma vez cego porque o era: caecus; era outra vez cego porque o não conhecia: nescis. E porque era duas vezes cego, era duas vezes miserável: miser, et miserabilis. Ser cego era miséria, porque era cegueira; mas ser cego, e não o conhecer; era miséria dobrada, porque era cegueira dobrada. A primeira cegueira tirava-lhe a vista das outras coisas; a segunda cegueira tirava-lhe a vista da mesma cegueira, e por isso era cego sobre cego, e miserável sobre miserável: Miser, et miserabilis, et caecus.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.