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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Do rei, que logo direi, falava o profeta Malaquias debaixo do nome de Sol de Justiça, quando disse que nas suas penas estava a saúde do mundo: Orietur vobis sol justitiae, et sanitas in pennis ejus.20 Chama penas aos raios do sol, porque assim como o sol, por meio de seus raios alumia, aquenta e vivifica a todas as partes da terra, assim o rei, que não pode sair do seu zodíaco, por meio das penas que tem junto a si, dá luz, dá calor, e dá vida a todas as partes da monarquia, ainda que ela se estenda fora de ambos os trópicos, como a do sol e a nossa: Et sanitas in pennis ejus. – Se as suas penas forem sãs e tão puras como os raios do sol, delas nascerá todo o bem e felicidade pública: mas se em vez de serem sãs forem corruptas, e não como raios do sol, senão como raios, elas serão a causa de todas as ruínas e de todas as calamidades. Se perguntardes aos gramáticos donde se deriva este nome calamidade: calamitas, responder-vos-ão que de calamo. E que quer dizer calamo? Quer dizer cana e pena, porque as penas antigamente faziam-se de certas canas delgadas. Por sinal que diz Plínio que as melhores do mundo eram as da nossa Lusitânia. Esta derivação ainda é mais certa na política que na gramática. Se as penas de que se serve o rei não forem sãs, destes cálamos se derivarão todas as calamidades públicas, e serão o veneno e enfermidade mortal da monarquia, em vez de serem a saúde dela: Sanitas in pennis ejus. O rei de que fala neste lugar Malaquias é o Rei dos Reis, Cristo, e as penas com que ele deu saúde ao mundo, todos sabemos que são as dos quatro evangelistas, e essas assistidas do Espírito Santo. Para que advirtamos evangelistas dos príncipes a verdade, a pureza, a inteireza que devem imitar as suas penas, e como em tudo se hão de mover pelo impulso soberano, e em nada por afeto próprio. Se as suas escrituras as pomos sobre a cabeça como sagradas, seja cada uma delas um evangelho humano.

Porém se sucedesse alguma vez não ser assim, ou por desatenção das penas maiores, ou por corrupção das inferiores, de que elas se ajudam, julguem as consciências, sobre que carregam estes escrúpulos, se têm muito que examinar, e muito que confessar; e muito que restituir em negócios e matérias tantas e de tanto peso! Que possa isto suceder, e que tenha já sucedido, o profeta Jeremias o afirma: Vere mendacium operatus est stylus mendax scribarum. Ou como lê o caldaico: Fecit calamum mendacii ad falsandas scripturas.21 E suposto que isto não só é possível, mas já foi praticado e visto naquele tempo, bem é que saiba o nosso, quanto bastará para falsificar uma escritura. Bastará mudar um nome? Bastará mudar uma palavra? Bastará mudar uma cifra? Digo que muito menos basta. Não é necessário para falsificar uma escritura mudar nomes, nem palavras, nem cifras, nem ainda letras: basta mudar um ponto ou uma vírgula.

Perguntam os controversistas se assim como nas Sagradas Escrituras são de fé as palavras, serão também de fé os pontos e vírgulas? E respondem que sim, porque os pontos e vírgulas determinam o sentido das palavras, e variados os pontos e vírgulas, também o sentido se varia. Por isso antigamente havia um conselho chamado dos massoretas, cujo ofício era conservar incorruptamente em sua pureza a pontuação da Escritura. Esta é a galantaria misteriosa daquele texto dos Cânticos: Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatas argento (Cânt. 1,10). Diz o Esposo divino que fará à sua esposa umas arrecadas de ouro, esmaltadas de prata; – e o esmalte, segundo se tira da raiz hebraica, era de pontos e vírgulas, porque, em lugar de vermiculatas, lêem outros: punctatas, virgulatas argento. Mas se as arrecadas eram de ouro, por que eram os esmaltes de prata, e formados de pontos e vírgulas? Porque as arrecadas são ornamento das orelhas, onde está o sentido da fé: Fides ex auditu22 (Rom. 10, 17), e nas palavras de fé, ainda que os pontos e vírgulas pareçam de menos consideração, assim como a prata é de menos preço que o ouro, também pertencem à fé tanto como as mesmas palavras. As palavras, porque formam o significado; os pontos e vírgulas, porque distinguem e determinam o sentido, Exemplo: Surrexit, non est hic (Mc. 16,6): Ressuscitou, não está aqui. – Com estas palavras diz o evangelista que Cristo ressuscitou, e com as mesmas palavras, se se mudar a pontuação, pode dizer um herege que Cristo não ressuscitou: Surrexit? Non. Est hic. Ressuscitou? Não. Está aqui. – De maneira que só com trocar pontos e vírgulas, com as mesmas palavras, se diz que Cristo ressuscitou, e é fé, e com as mesmas se diz que Cristo não ressuscitou, e é heresia. Vede quão arriscado ofício o de uma pena na mão. Ofício que, com mudar um ponto ou uma vírgula, da heresia pode fazer fé, e da fé pode fazer heresia. Oh! que escrupuloso ofício!

(continua...)

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