Por Lima Barreto (1915)
Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento venciaa e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.
Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o
Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Inocêncio Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um pouco de inveja no olhar.
Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
- Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par.
A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
- Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que não vai ver, Ismênia? Parece barato.
A Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era por monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. Estefânia, a doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:
- Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê! Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.
- Então, Doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.
- É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos - fui de um heroísmo!...
- Conhece o Chavantes? perguntava um outro.
- Conheço. Um crônico, um pândego...
- Foi seu colega?
- Foi, isto é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.
Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro.
- É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no Deve e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.
- Atualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...
- Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabéns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!
- Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.
- Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
- Boa carreira.
Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural.
Para aquela gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma cousa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nela de modo algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum, na aparência, mas a sua substância tinha mudado, era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fora da natureza terrestre, quase divina.
Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O general ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas, o Major Inocêncio, o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Segismundo.
Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação militar. O contra-almirante era interessantíssimo. Na Marinha, por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi aos poucos se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos altos lugares, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.