Por Coelho Neto (1898)
Nesse momento o ladrão, que não cessava de .resmungar, voltando a cabeça, disse em tom atrevido :
Se és o Christo, livra-te e a nós...» O outro, porém, reprehendeu-o :
—Nem te commoves do soffrimento, cuja dôr conheces. Tu e eu fizemos por elle, mas que fez este justo por merecê-lo ? E, docemente, inclinando-se para Jesus, implorou :
— Senhor, lembrai-vos de mim quando vos virdes no céu.
E o martyr respondeu docemente :
— Em verdade te affirmo que hoje serás commigo no paraiso.
Duas mulheres sahiram da multidão e; seguidas por um mancebo louro, chegaram-se vagarosamente á cruz.
A mais moça era linda, alta e branca, loura, d'olhos muito azues e amparava a mais idosa, que era Maria.
Ao verem-nas, os da turba logo sussurraram:
— É a de Magdala. A que vivia perto da fortaleza e tinha escravas negras e auletridas vindas das ilhas gregas. E citavam-se nomes de sadduceus abastados, de romanos perdulários que a procuravam e que, por ella, se haviam perdido.
— Dizem que se desfez de tudo, até do seu patrimônio, cedendo aos pobres o ultimo obulo.
— Enamorou-se do nazareno. Ouvia-o cho- rando, seguia-o descalça e, quando elle pa- rava, estendia-se-lhe aos pés, e sorrindo, com toda alma nos olhos, ficava-se a contemplá-lo. Lavou-lhe, certa vez, os pés com essência de nardo,, enxugou-os com os próprios cabellos.
Riram.
E as duas mulheres pararam defronte do cruzeiro. A de Magdala chorava. Maria mal se sustinha ; vergava, cambaleava nos braços do louro inancebo, que era João, o apóstolo mais moço. Olhava, estendia os braços e dos lábios seccos não lhe sahia palavra. Então, o meigo discipulo sentou-a aos pés da cruz e ali ficou a Dolorosa immovel, de olhos muito abertos, estremecendo, sem um gemido, sem uma lagrima.
Da turba partiam chufas — eram phariseus que intimavam o Christo a realisar um milagre. Martyrisavam-no com os próprios beneficios que elle fizera, atiravam-lho em rosto, á maneira de injurias, as suas proprias misericórdias.
— Não deste vista aos cegos ? Não fizeste andar os paralyticos ? Não resuscitaste os mortos ? Tira-te d'ahi. Chama os teus anjos.
Outros protestavam furiosos contra a legenda que encimava o cruzeiro, na qual Jesus era inculcado como Rei dos Judeus.
Servos do Templo faziam pelotas de barro e atiravam-nas á cruz. De repente, com um rangido, o corpo do martyr estorceu-se e palavras sahiram-lhe da boca :
— Mulher, eis ahi o teu filho. ..
Falava de João á Maria e, como o discipulo o encarasse, disse-lhe :
— Eis ahi a tua mãi.
E calou-se.
Não teve Maria coragem de levantar os olhos — quedou encolhida, tremendo como em frio intenso. A grita do povo não a tirava da immohilidade trágica, toda ella entregara-se ao soffrimento, só attendendo ás oscillações do cruzeiro no qual se encostara.
As nuvens cresciam no céu tenebrosas, encobrindo o sol; rolavam trovões á distancia, azas estalavam no ar pesado e o calor tornavase insupportavel. Foi então que, enfraquecidamente, o Christo murmurou com um estremeção violento :
— Meu Deus! Meu Deus ! porque me des- amparais ! ?
Andavam os soldados em volta da cruz cantarolando, e como outras mulheres se aproximassem, entraram a chasqueá-las. Offereciam-lhes posca, acenavam-lhes com punhados de tamaras ou pediam-lhes noticia do famoso propheta que reviçava os campos seccos e restituia a vista aos cegos, sarava os leprosos das ruinas, defendia os pequeninos.
Pouca gente estava nas immediaçõcs. Temendo a tempestade, que se armava, a maioria descera em alegre arranchada cantando, bailando por entre a urze e os cardos dos caminhos pedrentos.
Foi em meio do silencio que a voz de Jesus soou quasi extincta :
— Tenho sede.
Maria ergueu-se d'impeto, mas faltaram-lhe as forças; oscillou, foi d’encontro ao cruzeiro. Ampararam-na. Estendeu os braços ao Filho e ficou como de pedra, a olhá-lo.
Um homem acudiu com um canna em cuja ponta havia uma esponja encharcada em vinho. Provou-a o nazareno, mas repellindo-a, disse, inclinando a cabeça :
— Tudo está consummado !
Um estremecimento sacudiu-o todo, fazendo com que se lhe abrissem mais as feridas e o sangue corresse copioso. Subia-lhe o peito em
haustos, a cabeça debatia-se e, rolando os olhos, escancarando a boca em desmedido hiato, sorveu com ânsia o ar e depois exclamou :
— Pai, em vossas mãos encommendo o meu espirito !
Ainda um instante moveu-se. Mas amolleceram-se-lhe flaccidamente os braços e a cabeça, como abandonada, tombou-lhe pesada ao peito.
Com estrepito convulso a terra em torno abalou-se, o monte fendeu-se em brecha profundissima, coriscos zebraram o fundo caliginoso do céu e uma noite subita baixou.
Os soldados recuaram cheios de assombro. Alguns, atirados longe, não tiveram animo de erguer-se e ficaram a murmurar estarrecidos.
O próprio centurião, immobilisado, não teve palavra para animar a sua gente.
Só Maria, petrificada no soffrimento, não sentira a terra tremer, não dera pela treva súbita, não vira faiscarem os raios : inerte, olhos immensos, não se tirava, da attitude de êxtase doloroso.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.