Por Coelho Neto (1898)
Iam e vinham pirogas remadas por homens de busto nú e nas praias, cobertas de immundicies, andavam bandos apressados em algazarra, mercando e frautas concertavam, soavam tambores roucos e, por vezes, no ar, azas fortes batiam e aves de grandeza e larga envergadura iam-se ao céu em vôos arrojados, sumindo-se para lá das arvores, nas montanhas versudas que fechavam a terra.
TRAIÇÕES
LXXXIV
Assi que d'este porto nos partimos
Com maior esperança e mór tristeza,
E pela costa abaixo o mar abrimos,
Buscando algum signal de mais firmeza;
Na dura Moçambique, em fim, surgimos,
De cuja falsidade e má vileza,
Já serás sabedor, e dos enganos
Dos povos de Mombaça pouco humanos.
(CAMÕES, OS Lusiadas; canto V.)
Tendo o mouro noticia do surgimento da frota despachou emissarios que foram de visita ao Gama levando-lhe presentes e expondo o desejo do xeque de ir pessoalmente levar-lhe as boas vindas. O Gama, que desejava a amizade do mouro, pretendendo aproveital-a em seu serviço, não só accedeu ao que pedia como fez um dom de uma marlota, coraes e outros vários engodos enviando-lh'o com expressões de paz e de amizade. O mouro, porém, desdenhando os donativos, pedio-lhe algumas Peças de escarlata e, não levando as naus essa fazenda, com tal desculpa verdadeira o Gama respondeu.
Longe de retrahir-se com a resposta fez-se o xeque annunciar. Entrou a nau em aprestos de aformoseamento – poz-se a maruja em faina lavando o convez, brunindo os metaes, reparando avarias mais visiveis – escachoava a agua dos gamotes, cosiam-se rasgões das velas, calefatavam-se frinchas, breavam-se cabos, substituíam-se roldanas
Tapetes forraram as taboas salitradas toldos, de varios matizes, esticaram-se, bandeiras e galhardetes foram subindo ás driças e, para maior ostentação de garbo e força, fez o Gama mudar-se para os demais navios a gente fraca e doentia, escolhendo entre os homens os mais válidos aos quaes distribuio vistosas roupas.
Já rebrilhava a nau garrida quando estrondaram no mar as musicas dos negros. Estavam as aguas coalhadas de pirogas, porque todos queriam contemplar esse espectaculo, e uma frota de almadias vinha suavemente desusando em direcção á capitanea. O fausto com que vinham enriquecidas era proprio de um principe; a comitiva era grande e bem disposta e de pé, com os seus turbantes afogueados, trombeteiros sopravam clangorosamente. Desembarcando o xeque amparou-o o Gama fazendo-o passar por entre duas alas de homens cTarmas que formavam na tolda. Vestia o mouro soberbo uma cabaia de algodão finissimo e, sobre ella, outra de precioso velludo levantino, a fóta, entresachada de fios de ouro, fulgurava, um terçado á cinta cravejado de pedras e nos pés abarcas de velludo e ouro.
Sem dar mostras de espanto, como se tudo quanto visse já lhe fosse commum, seguio para a mesa na qual fôra servida uma collação profusa e, tanto se regalaram que o xerife d'ella saio cambaleando, com os olhos amortecidos, a baba em fio pela bocca d'onde escapavam grugrulhos desconnexos.
Alli se entretiveram o Gama e o xeque perguntando o mouro d'onde vinham e, respondendo-lhe o navegador com a verdade, ajuntou que iam de caminho á India. Para engrandecer seu Rei disse que aquellas naus eram parte mesquinha d'uma numerosa frota que largara de Lisboa perdendo-se a maior parte dos navios nas tormentas d'aquelles mares.
Fallaram de mercadorias, dizendo o Gama que o precioso que trazia era nas outras naus. Houve, então, o ensejo de chegarem aos pilotos e logo o xeque compremetteu-se a dal-os retirando-se, em seguida, com as mesmas mostras de amizade ao tempo em que soavam as trombetas e charamellas, e as frautas e as bozinas dos barbaros respondiam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.