Por Lima Barreto (1911)
— Quem é o novo? Não é o Xisto?
— Não sei, mas se há “encrenca! é porque não é do gosto do “velho”.
Numa pôs fim à conversa mandando que ele fosse almoçar. Lucrécio conhecia a casa e os criados, com os quais era familiar. Almoçou na copa com todo o desembaraço, como fazia na casa deste ou daquele parlamentar. O copeiro perguntou-lhe:
— Que há, Lucrécio?
— Olha: não digas nada. A força não quer o Xisto. Não digas nada. Querem pôr lá o ministro deles, o general Bentes... Não digas nada!
A saída do Barba-de-Bode não produziu o reatamento da conversa. Marido e mulher calaram-se. Pairou sobre eles uma atmosfera de apreensões e pressentimentos. As novidades do emissário, as suas meias palavras, o vago de suas informações, a imprecisão delas escondia algo tenebroso para as suas ambições. Viam na estrada obstáculos, viam-na interrompida bruscamente, violentamente. Sentiam a proximidade do imprevisto e esse sentimento se engolfava, avolumava-se, crescia neles, perturbava-lhes as sensações e as idéias, misturava umas com as outras, baralhava as lembranças; a consciência fugia de regulá-las, de encadeá-las; a personalidade perdia os pontos de referência. Era a catástrofe próxima, a catástrofe jamais esperada.
O dia ainda continuava lindo, fresco e tranqüilo; o chá foi servido quase em silêncio; a velha Romana olhava um e outro e não tinha nada a dizer. As breves palavras do serviçal e as que lhe eram dirigidas morriam no silêncio como se não fossem pronunciadas. O próprio copeiro servia sem desembaraço; parecia novo no ofício, constrangido. O ruído das xícaras era logo abafado. De quando em quando, o marido olhava a mulher, e esta aquele; e aos dois, com um olhar perscrutador, cheio de esforço de adivinhar, a velha D. Romana, tia-avó de D. Edgarda. Ia assim o almoço já ao fim, quando a cadelinha apareceu na sala. Correu para junto da dona, com acentuados trejeitos de contentamento; festejou-a e a moça afagou-a, dizendo:
— Olha a minha pobre Lili.
Apanhou-a ao côo, abraçou-a, dizendo:
— Coitadinha! Coitadinha dela! Onde estiveste, meu bem?
Levantaram-se da mesa e D. Edgarda pode dizer:
— Não deixe de ir ver papai. Essas coisas não se adiam.
Ela continuou a afagar a cachorrinha; Numa acendeu o charuto que teimava em apagar-se e respondeu com firmeza:
— Não deixo, não deixo!... Sei bem, muito bem, que é preciso ouvi-lo.
As mulheres afastaram-se, enquanto Numa sentado à cadeira de balanço, fumava, vendo desfazer-se a mesa do almoço. Essas reviravoltas, essas contramarchas na política, ele ainda não sabia adivinhar. Às vezes estava na votação de um projeto; outras vezes na notícia de um jornal; outras vezes em um boato, de forma que não sabia se à sua inexperiência ou a outra qualquer coisa devia atribuir essa falta de acuidade para descobri-las.
Ainda ontem saíra da Câmara e nada vira, nada notara de extraordinário, a não ser um tenente do seu Estado a conversar à parte com um deputado veterano. Vira-os, lembrava-se de que quase sempre confabulavam; mas agora é que notava os reiterados encontros de ambos e o cuidado que tinham em falar baixo, quando se acercava deles. Haveria uma revolução? Mas não podia haver! Deviam estar satisfeitos os militares! A recomendação era dar-lhes tudo. Não tinham? O montepio das filhas que deviam perder ao casar, não ficava com elas depois do matrimônio? Queriam mais postos? A reforma não se fizera? As suas viúvas não viviam em casas do Estado sem pagar aluguel? Os seus filhos não tinham um luxuoso colégio de graça? Mas seria mesmo revolução?... Quem seria vencedor, se houvesse uma? Era preciso adivinhar. Mas como adivinhar, meu Deus? Quem estava garantido em um país desses? Quem? O imperador, um homem bom, honesto, sábio, sem saber por que, não foi de uma hora para outra tocado daqui pelos batalhões? Quem podia contar com o dia de amanhã? Ele, Numa? Julgara isto até ali, mas via bem que não. Só havia um alvitre; ir para fora e esperar que as coisas se decidissem, aderindo então ao vencedor. Seria bom.
A sua vontade era esta, mas... o seu sogro havia de indicar-lhe o a caminho.
Tinha experiência dessas coisas.
O copeiro acabava de tirar a toalha e sacudiu pela janela as migalhas que tinham ficado nela. Numa reparou a operação sem nenhum pensamento, esquecido um instante de suas apreensões. A idéia da revolução voltou-lhe novamente e dirigiu suas idéias para o governo. Que fazia ele? Não sabia? Então o governo não tem tanta força que o país paga para mantê-lo — como não tinha tomado providências? Para que servia a Polícia, os Bombeiros? Que poder?! E a Constituição? Lembrouse Numa que era também poder, poder Legislativo; e a revolução podia atingi-lo. A mulher apareceu:
— Pensei que você já tivesse ido.
— Não. Que é que há?
— Eu sei lá!
— Deve haver alguma coisa, porque...
— O melhor é você fingir que não sabe nada.
— É o que vou fazer.
— Outra coisa, Numa: você vê se os meus livros já vieram.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.