Por Coelho Neto (1924)
Adianto-me com o coração contente e os olhos rasos de água e a ilusão, de súbito, desfaz-se. Só, então percebo o logro, lembrando-me da impossibilidade do seu retorno, porque ao destino para onde ele partiu vai-se por uma ponte estreita, que só dá passagem a um por um, e a fila não se interrompe como o curso dos rios.
E como poderá ele regressar se, até hoje, desde que começou na vida a marcha para o abismo, nenhum outro conseguiu ainda remontar a correnteza perene?
Se sei que mentes por que hei de dar ouvidos ao que me dizes? Se estou certo de que é falso tudo quanto me segredas, como me deixo enganar, ainda contando com o que me prometes? Por que hás de insistir na tortura? Por que assopras o cineral se não há nele centelha que reanime o lume?
Que nos enganes com a vida, compreende-se a vida existe; mas que nos tentes iludir com a morte, é crueldade.
Que posso eu esperar de onde tudo é nada?
E, todavia, espero. Não me conformo com a idéia de que ele não tornará mais, nunca mais! ao meu afeto.
Espero em vão, bem sei! mas bendigo-te, Esperança, bendigo-te porque manténs a ilusão em minha alma.
Se a Saudade não tivesse, para nutrir-se, o alimento que lhe atiras, devorava-nos o coração. Bendita sejas, pois, Esperança, doce e triste alívio de desventurados.
ROSÁRIO
Como tal ou qual a quem se houvesse rebentado um colar de preço e se pusesse a procurar as pérolas uma a uma por frinchas e taliscas, assim vivemos nos reunindo recordações a ver se recompomos no fio da memória, todos os episódios da sua existência efêmera, desde a hora feliz do seu nascimento, a pérola menor, até a cruz do doloroso instante.
Cada vez que, a um de nós, ocorre um fato ajuntamo-lo às lembranças.
Uma pérola, porém a maior, rolou no abismo e não há como reavê-la. As outras mesmas, que recolhemos, quando as tentamos engranzar logo se dissolvem em lágrimas.
Toda a riqueza que se perdeu, por mais que a busquemos ajuntar, foge-nos em bagas de pranto, pérolas que nos caíram no coração, com as quais, se não refazemos o colar de outrora, formamos o rosário em que rezamos por ele a oração da saudade.
VIVER
Viver! Eu sei que a alma chora E a vida é só dor ingrata. Pranto, que a não alivia,
Olhos, que o estão a verter... Sofra o coração, em hora!
Sofra! Mas viva! Mas bata Cheio, ao menos, da alegria De viver, de viver!
Raimundo Correia
Rugem os ventos, estalam raios, o navio, desarvorado, guina, embica, empina-se, trambolha; entra-lhe o mar a golfos pelas bordas, afreima-se a maruja e, na profundeza, a máquina trabalha.
Não cessa e, quanto mais se enfuria a tormenta, mais se esforçam, os que asseguram o movimento, em manter a fornalha acesa, a caldeira em força, as juntas bem lubrificadas para que nada impeça a propulsão.
Em cima, é a grita espavorida; são preces, ordens, correrias; um que acode ao leme; outro que marinha lesto enxárcia acima. Este, calafeta abertas; aquele, entaipa escotilhas.
E já se desligam os cabos que suspendem aos turcos os barcos de salvamento, cuida-se a palamenta, trazem-se salva-vidas e tudo e apresta para a possibilidade iminente do naufrágio.
E a máquina retroa no bojo do navio.
Aos embates da madria toda a construção abala-se. A hélice, umas vezes aprofunda-se, outras vezes, no levantar da popa, gira rápida no vácuo e toda a nave estremece, range convulsamente sacudida.
Remergulha. Faz-se tão rasa com o oceano crespo que parece ir em soçobro. Surge a ímpeto, arfando; eleva-se mostrando a quilha, torna de chapa ao abismo, bate estrondosamente e, com o choque, demora um instante a pique no côncavo das vagas. Um vagalhão sustem-na, põe-na a flux.
Ei-la a escorrer dos flancos cachoeira mar espumarento, ginga às tontas, cambaleia ringindo e o terror cresce entre os homens e os escarcéus cada vez mais se enfurecem, tudo é desespero.
E a máquina trabalha.
Assim também procede o coração na angústia.
Sofra o coração, embora!
Sofra! Mas viva ! Mas bata Cheio, ao menos, da alegria De viver, de viver!
A alegria de viver! Isso não torna ao coração. As máquinas de aço e bronze, se conseguem vencer os temporais, quando os navios chegam ao porto são examinadas peça por peça e, nem por serem de metais fortíssimos, deixam de trazer mossa.
Entram, porém, os artífices com o trabalho e, onde encontram falhas, reparam; onde descobrem eiva, corrigem; se um êmbolo ou mancal sofreu dano, logo o substituem e a máquina, refeita, torna ao seu oficio, íntegra como dantes e nela nem sal das ondas se conserva porque tudo é limpado, lixado e ajustado.
O coração, esse... quando chega ao porto de bonança, serenando, é que mais sofre.
Amaina-se o temporal, limpam-se os ares, abre-se o céu em luz, abranda-se em brisa o vendaval, tudo torna à calma do bom tempo, o coração quebrado, esse... quem o conserta?
Que artífice é capaz de substituir nele as peças que a tormenta inutilizou?
Move-se, vive e bate... mas como vive. Ai! dele... Bate. De que lhe serve bater?
Ao sair do estaleiro o navio corre ao mar e a hélice contra as águas e revolve-as e, cada volta em que gira, leva-a para diante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.