Por Coelho Neto (1906)
Encolheu os ombros, deixando a janela e, molemente, abandonadamente, encostou-se à mesa brincando com a colher que ficara na salva de metal. De repente, numa inspiração, exclamou:
— Vou procurar o Mamede.
— Mamede?! Para quê? perguntou a mãe.
— Para descobrir Violante.
— E Mamede sabe, meu filho!?
— Mamede? Mamede conhece toda a cidade, é íntimo dessa gente da polícia. Se com ele eu não descobrir Violante, então... — esticou o beiço, desanimado. — A senhora bem sabe que ele foi agente de polícia, era um dos melhores; saiu por causa do gênio.
— E sabes onde ele mora?
— Mora em uma estalagem, na Rua do Riachuelo. Vou já. Hoje é domingo; ele deve estar em casa.
— Então, vai. E a polícia?
— Qual polícia! Penso lá em polícia!? Descanse. — Deu alguns passos e voltou-se: Olhe, se eu tivesse dinheiro ainda bem, mas assim...
E caminhou para a cozinha. Felícia talhava a carne sobre a mesa encardida e acumulada; o gato miava, fazendo voltas, com a cauda hirta e, numa gaiola, o gaturamo gorjeava, pulando, todo arrufado e úmido do banho. Paulo saiu ao quintal e, descalço como estava, foi seguindo direito ao banheiro. Felícia, vendo-o passar, correu com um par de tamancos e uma toalha felpuda:
— Olhe, nhonhô.
Ele tomou os tamancos, atirou a toalha ao ombro e empurrou a porta do banheiro sombrio e úmido. Despiu-se e, nu, passeando, a esfregar o peito, d'olhos no chão, esteve algum tempo a pensar.
Na vizinhança, uma voz de mulher cantava; estalavam roupas batidas e, de instante a instante, eram berros de locomotivas que chegavam, que partiam, arrastando comboios. Ficou debaixo do chuveiro, hesitante, com frio; esteve um momento parado a olhar o crivo que pingava, depois uma aranha, que se balançava na teia, a um canto, junto à caixa d'água; por fim, resoluto, puxou a corrente e a água jorrou copiosa. Refrescado, saltou para a tábua e, envolvendo-se na toalha, pôs-se a esfregar-se. Vestiu-se, calçou os tamancos e saiu.
Passando pela cozinha recomendou à Felícia que lhe arranjasse qualquer coisa para almoçar: um bife e ovos — e, apressado, fechou-se no quarto para vestirse. As botinas estavam encharcadas; tomou uns sapatos amarelos e surpreendeuse a assobiar, esquecido da agonia que lhe toldava a vida, dantes tão calma e feliz naquela casinha alegre. Vestido, mirou-se rapidamente ao espelho, compôs a gravata e passou à sala de jantar.
Felícia estendera a toalha e já o prato o esperava. Sentou-se; e arrastando uma cadeira para junto dele, ficou a enrolar uma ponta da toalha, suspirando a espaços. Quando a negra apareceu com o bife e os ovos ainda rechinando na frigideira, Paulo partiu o pão e pôs-se a comer às pressas, sem levantar os olhos. Cigarras chiavam nas árvores vizinhas e na rua um vendedor de frutas prolongava um pregão monótono.
— Que vais dizer ao Mamede?
— A verdade.
— Que ela fugiu de casa? — Então?
Calou-se, pensativa. e tornou por fim, receosa:
— Não sei. Eu, por mim, não dizia. Mamede, com aquele vicio...
— Ora, vício. Mamãe há de ver.
— Enfim...
— A senhora pensa que a polícia é uma coisa e ela é outra. Olhe o Alves.
— Que Alves?
— Um colega meu. Um copeiro levou-lhe de casa todas as jóias da mãe e das irmãs e depois? O Alves fez tudo e, até hoje, não conseguiu da polícia outra resposta senão: "Que os agentes estão na pista do gatuno!" Vai já para um ano, e o Alves tem dinheiro para gastar. A senhora pensa que é só chegar lá e pedir? Pois sim! Vou arranjar-me com o Mamede. Se hei de gastar com um desconhecido, gasto com ele, que é amigo, e com mais probabilidade de êxito, porque Mamede pode ser tudo, mas estima-nos.
— Isso é verdade, concordou Dona Júlia, ajuntando: e tem obrigação. Seria um ingrato se não nos estimasse.
A palestra foi-se tornando calma entre mãe e filho, como se houvessem esquecido o desgosto. Dona Júlia chegou a notar que um dos punhos do filho tinha uma mancha de ferro e propôs substituí-lo.
— Não, serve este mesmo, — disse ele levantando-se e batendo forte com os pés para ajeitar os sapatos. Ainda mastigando, recebeu de Felícia a xícara de café; tomou-o em três goles e, dirigindo-se a Dona Júlia, disse-lhe: E agora não fique para aí chorando: almoce descansada. Eu vou ver. Tenho esperança de conseguir alguma coisa com o Mamede.
Tomou o chapéu, mas Dona Júlia adiantou-se com a escova.
— Espera um pouco, não vás assim! — e pôs-se a escová-lo vagarosamente.
— Lembre-se de sua saúde; a senhora anda doente. Eu estou aqui. Não vá agora amofinar-se por uma ingrata, que nem é digna da sua amizade. Eu, palavra de honra, se não fosse pela senhora, nem me abalava — que se arranjasse. — Dona Júlia curvara-se para escovar-lhe as calças.
— Isso não! É minha filha, é tua irmã!
— Pois sim...
— É teu sangue.
— Meu sangue, não! — negou indignado. — Não, que eu trabalho, faço pela vida. não ando a embonecar-me. Mas ela há de ver o bonito... — Oh!
— Não fales assim, Paulo! Deixa-a. Deus é grande! — E passando-lhe a mão pelas costas, para tirar um fiapo que esvoaçava repetiu: Deus é grande e é pai.
Paulo tomou a bengala e partiu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.