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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

Um bando de homens corria em tropel em direção ao abrigo agreste. À frente deles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das asas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames claros. No cimo dos cerros grupos resplandeciam. Súbito uma gaita atroou o silêncio.

4iblio“Hosana! Hosana!”

O pequeno adormeceu docemente com a boca colada ao peito materno. Maria beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.

“Hosana! Hosana!”

bradavam fora. Ela sobressaltou-se e chamando o esposo, perguntou: - Quem clama assim, meu senhor?

Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o infante. E ela, cuidadosa:

Contanto que o não despertem...

E aconchegou-se ao colo agasalhando-o junto do coração.

DOR

Tomando a urna, ao clarear d’alva, quando o velho pastor saia com o rebanho, José acompanhou-o para que ele o guiasse à fonte.

Logo que os dois homens desapareceram, as ervas que ourelavam(1) a caverna cresceram prodigiosamente, emaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada.

A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em êxtase contemplando o filho,cujo hálito débil cheirava docemente a leite. Posto que apenas tivesse horas, já ela lhe havia descoberto todos os encantos e se lho arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil crianças, reconhecê-lo-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no coração gravado.

Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobressalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com ele, comovidas.

Tomou-o Maria ao colo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder aliviá-lo, pôs-se a chorar aflita e, sobre a divina face as suas lágrimas caiam gota a gota como o orvalho cai das folhas sacudidas pelo vento.

Ai! dela, como se julgava culpada e infeliz vendo sofrer o pequenino amor, tão novo, tão inocente, tão sem culpa e já suportando as torturas herdadas da carne.

Começava a divindade a visitar o sofrimento; a peregrinação de Deus através da agonia anunciava-se pelo primeiro choro.

Ele havia de conhecer todas as dores, todas as angústias para poder julgá-las aliviando o homem, cuja redenção trazia.

Teatro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava apenas – era a iniciação.

Outros maiores tormentos formavam a falange suplicante, a alameda trágica da existência, onde a alegria é como o nimbo solar que passa dificilmente por entre as frondes compactas.

Que fazer? Deu-lhe o peito. Pôs-se o infante a mamar vagindo, estremecendo a ela, relanceando em torno dos olhos úmidos e aflitos, implorava o mistério.

Tudo era silêncio em volta, ninguém que a socorresse. E os anjos? Já haviam regressado ao céu.

O infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrara desacompanhado

no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na humanidade.

Só lhe valeram os carinhos de Maria; o calor do colo, o enlace amoroso dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, aliviando-o e, de novo, adormeceu tranqüilo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno.

RECEIO

Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de ouro em torno da cabeça do infante adormecido.

Todas as aves chilreavam, gárrulas moças passavam na estrada. Às vezes eram récuas de dromedários desfilando em ruidoso atropelo.

Maria prestava atenção ao rumor, receando pelo filho. Tomou-o muito ao seio e, quase de rastros, aprofundou-se na sombra escondendo o seu tesouro com amorosa avareza.

Tão lindo! quem não o desejaria! E se um daqueles homens, descobrindo-o, investisse para arrebatá-lo, quem o defenderia? Na treva ficava a coberto de todos os olhares.

No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gota do estilicídio respondia um som lacrimoso.

O ar era frio e úmido, as paredes luziam lutulentas e, fora, o sol brilhava, alegre e tépido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas agudas da abóbada escabrosa.

Quando José reapareceu, a erva da entrada subitamente esmarriu(1). Vendo deserta a palha estacou, olhando espantado com apreensões de desgraça.

Que seria feito deles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, tremia-lhe a urna ao ombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo:

- Aqui, meu senhor. O patriarca adiantou-se e, sentindo a friagem do sítio, ouvindo o triste gotejar na laje, perguntou:

- Por que buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? Lá fora há um calor macio e sente-se o aroma da ervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui há o silêncio e a melancólica espessidão dos túmulos.

- Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão tímido que eu viveria, de boa mente, num subterrâneo só para que os olhos maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.

(continua...)

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