Por Raul Pompéia (1880)
Um deles permanecia em pé, com os braços cruzados sobre o cano de uma espingarda, e olhava inalteravelmente para o outro que, assentado, revelava pelo balancear da cabeça os sinais de uma luta entre a vigília e o sono. Mais longe, como os mortos no campo de batalha, estavam estendidos outros homens nas mais variadas posições. Tinham todos o corpo envolto em capas e pareciam dormir profundamente.
O que estava de pé curvou-se e bateu brutalmente no ombro do companheiro, exclamando:
— Dormes! Se dormes, encarregado da vigília, o que farás, encarregado da vingança?
Desperta e vem fazer-me companhia.
O negro que fora tão estouvadamente despertado levantou a cabeça, perguntando, com os olhos meio fechados:
— O que é que quer?
O mais moço vendo que o companheiro não estava disposto a se levantar, largou no chão a espingarda e segurando-lhe os ombros, sacudiu-o com toda a força. As sacudidelas tiveram bom efeito, pois o mais velho pôs-se de pé e, estendendo os braços acima da cabeça, curvou-se para traz como que se desentorpecendo. Em breve viu-se tão acordado como o mais moço e ambos fizeram uma volta pela clareira, atirando lascas de pau sobre as brasas.
As labaredas cresceram de tal modo que Eustáquio quase foi forçado a deixar o seu posto de observação. O calor já era intolerável, os exploradores suavam por todos os poros, mas, algumas palavras que então ouviram os decidiram a não abandonar o lugar nem que as chamas os atingissem. O assunto da conversação dos negros justificou-lhes a curiosidade.
— Então, José, disse o mais velho, você me falou ainda agora na vingança de amanhã, mas não disse a que horas devemos atacar a casa.
— Oh não sabes? Isto é demais!
— Por que?
— Porque não há aqui quem ignore, devias saber.
— Mas não sei. Diga-me, se quer.
— É de manhã bem cedo. Sabes agora?
— Muito cedo mesmo?... assim não terei tempo de dormir.
— Cala a boca, rei das preguiças! Só cuidas em dormir. Pois hás de estar pronto a qualquer hora, senão... Olhe.
O negro acabou a frase batendo com os dedos no cabo de uma faca que trazia à cinta.
— Ah! Pois você meu filho!...
— Aqui não há filho nem pai, há vingadores!
— Meu José, você fala em vingadores como se lhes houvessem feito mal.
— Como! Não me fizeram mal! Então aquela prisão?... os maus tratos?...
— Ora! Ora! No tempo em que o açoute lhe rasgava a pele, você só pedia perdão, e agora está aí com delicadezas.
— Eh! Não te lembras de eu ter dito que pedia perdão só para ganhar a ocasião de dar no senhor a foiçada com que o mandei para o inferno noutro dia? — Lembro-me, lembro-me!... Como era você fingido! Apre!...
— Pai!
— Meu filho, eu, que te vi de joelhos diante do senhor, que te vi depois de fouce erguida, não te julgarei hipócrita, fraco diante do forte e forte diante do fraco?!
— Cala-te! gritou o miserável negro desembainhando a faca e brandindo-a sobre a cabeça do pai.
— Perdão, José! Perdoe-me! exclamou o velho segurando o pulso do assassino.
— Perdôo-te, mas deixa-te de censuras! Não quiseste matar o senhor, mas te aproveitaste do que os outros fizeram.
— Ah! o cativeiro! o cativeiro!...
— Pois, se temes o cativeiro, hás de fazer o que quisermos. Hás de acordarte ao romper do dia, hás de matar gente, hás de ajudar-nos a agarrar a tal pequerrucha... Isto é amanhã, depois... veremos.
Eustáquio e os seus companheiros, possuídos de indignação contra o perverso, mal se continham.
— Qual será a gente que eles pretendem matar? Quem será a tal pequerrucha? perguntou o esposo de Branca, de si para si.
Meditou um pouco e, com as pálpebras úmidas, interrogou o céu, que as folhas deixavam entrever-se.
Os paraenses mordiam os lábios e fechavam os punhos apertando as armas.
Um deles, até em um desses movimentos convulsivos, calcou o gatilho e desarmou a espingarda.
Teria soado uma detonação, se a espoleta não houvesse felizmente caído. Todavia ouviu-se um forte estalido.
— Quem anda lá por cima? gritou o negro mais moço. Os exploradores sentiram calafrios.
Estavam descobertos, e talvez perdidos, porque, logo que o negro gritou, um homem branco que dormia se agitou, atirou a capa para um lado e ergueu-se, perguntando:
— O que temos? Hein, José!
O escravo, poucos segundos antes tão altivo e insolente, tornou-se humilde e, com os olhos baixos, respondeu a meia voz:
— Ouvi um ruído ali por cima.
— Hás de verificar o que foi, continuou o que se despertara, num tom imperioso. Mas, antes disso... Já me ia esquecendo... Tu és o encarregado de arrebatar a minha pequenita.
— Sim senhor, sim senhor, respondeu apressadamente José.
— A velhaquinha, prosseguiu o homem branco, corno que falando consigo, escapou na picada e livrou-se do tratante que me quis pregar uma peça, mas não me escapará desta vez.
Os exploradores tiveram ímpetos de se precipitarem da árvore a estrangular o malvado.
O marido de Branca conheceu a excitação dos seus homens, e além disso, viu que os dois negros saíam da clareira para revistar as árvores, viu que era urgente tocar a retirada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.