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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

À frente da multidão, que foi encontrar o duque, notavam-se o chefe de polícia e o marquês d’Etu, filho único do duque de Bragantina.

O chefe de polícia era o dr. Trigueiro, a quem já nos temos referido; o marquês de d’Etu era o proprietário de um belo palácio no pitoresco arrabalde das Bananeiras e de numerosas coleções de quartos para morada de pobres, às quais se dá geralmente o nome de cortiços.

Se aludimos a estas propriedades do marquês é porque falar no filho do duque de Bargantina, sem tocar nos tais cortiços, fora deixar incompleto um retrato.

O marquês d’Etu era apelidado o príncipe dos cortiços pela maledicência dos círculos aristocráticos. Em verdade a mofa da alcunha era justiceira. O marquês era um produto abortivo do tronco dos Bragantinas. Um gentilhomme profundamente bourgeois. Mas o seu burguesismo dava somente para atribuir maior importância a uma conta de açougue, com alguns tostões de menos, do que a quantos documentos nobiliárquicos em regra fossem necessários para ligá-lo à família dos Bragantinas.

Estes instintos de avareza não se enquadravam perfeitamente com as orgulhosas liberdades do duque. Em razão disso, pouco aparecia o marquês d’Etu na quinta do Santo Cristo. O pai e o filho não alimentavam estreitas relações. E, só uma causa séria podia levar o marquês ao palácio do seu ilustre pai.

Tinha, por conseguinte, uma importante significação a presença do marquês em Santo Cristo.

Demais, o marquês, um homem de boas cores e militar que se gloriava de alguns contestados mais brilhantes feitos bélicos, dirigia-se ao encontro do duque com o rosto desfeito, o olhar desorientado e alguma umidade lacrimosa pelas pálpebras. Pobre soldado!

O duque de Bragantina achou esquisito aquele bando de gente que se aproximava dele.

Aquele monte de librés verdes manchadas de amarelo, botões azinhavrados, sobrecasacas pretas, jaquetas rústicas; aquelas caras amedrontadas, a maneira de andar daquela gente, a gesticulação desesperada do marquês d’Etu, a presença extraordinária deste fidalgo em sua casa, o ar atrapalhado, cheio de risos verdes, azuis, brancos e amarelos do chefe de polícia... aquela multidão, aquelas fisionomias, tudo tão fora do comum... Para um homem como o duque, que vivia bocejando nos grandes salões e na monotonia dos dias da quinta, aquele aspecto extraordinário causava um íntimo prazer. A curiosidade, aguçada pela presença do filho, que havia muito não o visitava, pela presença da polícia, pelo rebuliço daquele povo à sua chegada, causava-lhe gostosas titilações no espírito.

O duque, entretanto, amestrado proficientemente na arte de fingir, aparentou simplesmente admiração.

— Que quer dizer esta revolução? — perguntou, como se falasse consigo mesmo.

— Houve alguma coisa no palácio — disse, arregalando os olhos, um amigo que ia ao lado do duque.

— Que há de ser, meu Deus? — murmurou assustada a duquesa, que seguia apoiada no braço do marido...

Quem chegou primeiro foi o marquês d’Etu. À medida que adiantava-se, o marquês precipitava os passos. Por fim, lançou-se para o pai, gritando:

— Roubado! Roubado!...

O príncipe dos cortiços esqueceu-se de saudar a duquesa e de apertar a mão do duque.

— Roubado! — exclamava, com os lábios esticados e o peito arquejante.

— Bom-dia, marquês! — disse-lhe friamente o duque.

— Roubado! — repetiu inconscientemente o marquês.

— O que explica a sua agradável presença em nossa casa?... Então...

— Roubado! — insistia o príncipe.

— Acalme-se, marquês! — aconselhou pausadamente o sr. de Santo Cristo. — Conversemos em primeiro lugar. Depois...

— Fui roubado!

— Prenderam o ladrão?

— Sr. duque.

— Oh! Sr. dr. Louro!... explique-me o motivo por que o vejo aqui hoje... Que negócio de roubo é este?...

— Roubaram-me! — interrompeu, fora de si, o marquês d’Etu.

— Sr. d’Etu, tranqüilize-se, havemos de descobrir...

— Sr. duque — começou o chefe de polícia.

— Roubaram-me — cortou o marquês —, roubaram o anel de minha mulher!

— Conte, dr. Louro... — pediu o duque.

— Dr. Trigueiro, conte — repetiu o marquês.

— Dr. Louro, estou curioso...

— Dr. Trigueiro, estou desesperado...

— Ora, sr. marquês... — disse com impertinência o duque — sossegue!

Deixe-me conversar com o doutor chefe de polícia... Havemos de achar o anel.

— Um anel de quinhentos mil réis!... — gemeu prolongadamente o marquês.

— Sr. marquês — disse o chefe de polícia —, as jóias hão de se encontrar.

— As jóias? — interrogou o duque. — Então não se trata só do anel do sr. marquês?

— De minha mulher! — corrigiu o marquês d’Etu, no seu tom lamuriante. — Sr. duque, o negócio é muito mais grave — disse o chefe de polícia.

O fidalgo coçou o queixo com o indicador, mergulhando a mão nas alvas barbas e disse, distraidamente:

— Sim?!...

E, voltando-se para um criado, que estava por trás dele, perguntou:

— O cocheiro já entrou com o carro?...

— Como o sr. duque disse que queria subir a pé...

— Já sei... Já sei... Diga-me se ele já recolheu o carro...

— Sim, senhor!

— Previna-lhe então para que não se esqueça de ver por que está mancando aquele cavalo...

(continua...)

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