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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Garantia-se: um dos chefes do reduto era um engenheiro italiano habilíssimo, adestrado talvez nos polígonos bravios da Abissínia. Expunham-se detalhes extraordinários: havia no arraial tanta gente que tendo desertado cerca de setecentos só lhes deram pela falta muitos dias depois. E sucessivas, impiedosas, novas notícias acumulavam-se sobre o fardo extenuador de apreensões, premindo as almas comovidas. Assim, estavam já expugnadas pelos jagunços Monte Santo, Cumbe, Maçacará e, talvez, Jeremoabo. As hordas invasoras, depois de saquearem aquelas vilas, marchavam convergentes para o sul, reorganizando-se no Tucano, de onde, acrescidas de novos contingentes, demandavam o litoral, avançando sobre a capital da Bahia ...

As gentes alucinadas ouviam um surdo tropear de bárbaros ...

Os batalhões de Moreira César eram as legiões de Varo... Encalçavam-nos, na fuga, catervas formidandas.

Não eram somente os jagunços. Em Juazeiro, no Ceará, um heresiarca sinistro, o padre Cícero, conglobava multidões de novos cismáticos em prol do Conselheiro. Em Pernambuco, um maníaco, José Guedes, surpreendia as autoridades, que o interrogavam, com a altaneria estóica de um profeta. Em Minas, um quadrilheiro desempenado, João Brandão, destroçava escoltas e embrenhava-se no alto sertão do S. Francisco, tangendo cargueiros ajoujados de espingardas.

A aura da loucura soprava também pelas bandas do sul: o monge do Paraná, por sua vez, aparecia nessa concorrência extravagante para a história e para os hospícios.

E tudo isto, punha-se de manifesto, eram feituras de uma conjuração que desde muito vinha solapando as instituições. A reação monárquica tomava afinal a atitude batalhadora precipitando nas primeiras escaramuças, coroadas do melhor êxito, aquela vanguarda de retardatários e de maníacos. O governo devia agir prontamente.

CAPÍTULO II

MOBILIZAÇÃO DE TROPAS

Descoloraram-se batalhões de todos os Estados: 12.°, 25.°, 30 .º, 31.°, 32.°, do Rio Grande do Sul; o 27.°, da Paraíba; o 34.°, do Rio Grande do Norte; o 33.° e o 35.°, do Piauí; o 5.°, do Maranhão; o 4.°, do Pará; o 26.º, de Sergipe; o 14.° e o 5.°, de Pernambuco; o 2.°, do Ceará; o 5.° e parte do 9.° de Cavalaria, Regimento da Artilharia da Capital Federal: o 7.°, o 9.° e o 16.º, da Bahia.

O comandante do 2.° Distrito Militar, general Artur Oscar de Andrade Guimarães, convidado para assumir a direção da luta, aceitou-a, tendo antes, numa proclamação pelo telégrafo, definido o seu pensar sobre as coisas: "Todas as grandes idéias tem os seus mártires; nós estamos votados ao sacrifício de que não fugimos para legar à geração futura uma República honrada, firme e respeitada." A mesma nota em tudo: era preciso salvar a República...

CONCENTRAÇÃO EM QUEIMADAS

As tropas convergiam na Bahia. Chegavam àquela capital em batalhões destacados e seguiam imediatamente para Queimadas. Esta medida, além de corresponder à urgência de uma organização pronta naquela vila — feita base de operações provisórias — , impunha-se por outro motivo igualmente sério.

É que, generalizando-se de um conceito falso, havia no ânimo dos novos expedicionários uma suspeita extravagante a respeito das crenças monárquicas da Bahia. Ali saltavam com altaneria provocante de triunfadores em praça conquistada. Aquilo, preestabelecera-se, era um Canudos grande. A velha capital com o seu aspecto antigo, alteada sobre a montanha, em que embateram por tanto tempo as chusmas dos "varredores do mar", batavos e normandos; conservando, a despeito do tempo, as linhas tradicionais da antiga metrópole do oceano; ereta para a defesa, com os seus velhos fortes disjungidos, esparsos pelas eminências, acrópoles desmanteladas, canhoneiras abertas para o mar; com as suas ladeiras a prumo, envesgando pela montanha segundo o mesmo traçado das trincheiras de taipa de Tomé de Sousa; e com as suas ruas estreitas e embaralhadas pelas quais passaria hoje Fernão Cardim ou Gabriel Soares sem notar diferenças sensíveis — aparecia-lhes como uma ampliação da tapera sertaneja. Não os comovia; irritava-os. Eram cossacos em ruas de Varsóvia. Nos lugares públicos a população surpreendida ouvia-lhes comentários acerbos, enunciados num fanfarrear contínuo, sublinhado pelo agudo retinir das esporas e das espadas. E a animadversão gratuita, dia a dia avolumando-se, traduzia-se ao cabo em desacatos e desmandos.

Citemos um caso único: os oficiais de um batalhão, o 30.°, levaram a dedicação pela República a um assomo iconoclasta. Em pleno dia tentaram despedaçar, a marretadas, um escudo em que se viam as armas imperiais, erguido no portão da alfândega velha. A soldadesca por seu lado, assim edificada, exercitava-se em correrias e conflitos.

A paixão patriótica roçava, derrancada, pela insânia. A imprensa e a mocidade do Norte, afinal, protestaram e, mais eloqüente que as mensagens então feitas, falava em toda a parte o descontentamento popular, prestes a explodir.

(continua...)

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