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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

114. Persuada-se o príncipe que o que se concede a um, porque o pede, também se há de conceder aos outros, ainda que o não peçam. Entenda que as dispensações e privilégios, não só são feridas da lei, mas feridas mortais, e que a lei morta não pode dar vida à república; considere que as leis são os muros dela, e que, se hoje se abriu uma brecha por onde possa entrar um só homem, amanhã será tão larga que entre um exército inteiro. Olhe para as leis políticas, para as ordenanças militares, e para tantas pragmáticas econômicas, que, sendo instituídas para remédio, vieram por esta causa a ser descrédito. E seja a última e única resolução do príncipe justo, tratar as suas leis como suas, sustentando-as e mantendo-as em seu vigor inviolável e indispensavelmente, porque o que a lei nega a todos sem injúria, depois que se concede a um – ainda que seja com razão – não se pode negar a outro sem agravo. E é melhor, mais fácil e mais decente que as mesmas leis digam o não conservando-se, do que quebrá-las o príncipe pelo não dizer.

§VI

Quarto meio de evitar o não: antecipar os provimentos e não ter lugares vagos. Diligência da natureza em impedir o vácuo. S. Pedro e o lugar vago de Judas. O provimento da sucessão de Davi. D. João Segundo, o rei do Bom Memorial. Cristo aos Zebedeus responde que os lugares a que pretendiam já estavam providos. A política do céu: criar antes os oficiais que os ofícios.

115.O quarto e último meio ou indústria de evitar o não é antecipar os provimentos, e não ter lugares vagos, porque, tanto que o lugar está provido, cessam as pretensões. Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo, e que em todo o universo não haja lugar vazio. A este fim vemos subir a água, descer o ar, mover-se a terra, romper-se os mármores, estalarem os brasões, e correrem todas as criaturas com ímpeto contra suas próprias inclinações. Daqui nascem os freqüentes terremotos, e os extraordinários e horrendos, que não poucas vezes derrubaram e destruíram cidades inteiras. O mesmo que faz a natureza por impedir o vácuo, faz a ambição pelo ocupar. Em havendo lugares vagos, de todas as partes concorrem tumultuariamente a eles os pretendentes, não por impedir – que só se impedem uns a outros – mas por ocupar o vácuo, e tanto com maior e mais violento ímpeto, quanto a natureza acode ao bem comum do universo, e a ambição ao particular de cada um. E quais sejamos terremotos e perturbações da república que aqui se levantam, basta que o digam as batalhas interiores de Roma no concurso dos consulados. No governo monárquico é muito fácil atalhar todos estes inconvenientes, antecipando o vácuo de tudo aquilo que se pode pretender ou pedir, com prevenir vigilantemente que não haja lugares vagos. E assim o deve fazer todo o prudente príncipe.

(continua...)

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