Por Padre Antônio Vieira (1644)
52. Assim o entendeu da mesma Mãe o mesmo Pai, e o provou maravilhosamente o juízo e amor da mesma Senhora para com seu Filho, onde a eleição foi propriamente sua. Quando o Eterno Padre quis dar Mãe a seu Unigênito, foi com tal miramento e atenção à grandeza e majestade da que sublimava a tão estreito e soberano parentesco, que não só quis que fosse sua, isto é, do mesmo Pai a eleição da Mãe, senão que também fosse da Mãe a eleição do Filho. Bem pudera o Eterno Padre formar a humanidade de seu Filho nas entranhas puríssimas da Virgem Maria, sem consentimento, nem ainda conhecimento da mesma Virgem, assim como formou a Eva da costa de Adão, não acordado e estando em si, senão dormindo. Mas para que o Filho, que havia de ser seu, posto que era Deus, não só fosse seu, senão da sua eleição, por isso – como diz Santo Tomás – lhe destinou antes por embaixador um dos maiores príncipes da sua corte, o qual de sua parte lhe pedisse a sim,e negociasse e alcançasse o consentimento, e o aceitasse em seu nome. Este foi, como lhe chamou S. Paulo, o maior negócio que nunca houve nem haverá entre o céu e a terra, dificultado primeiro pela Senhora, e depois persuadido e concluído por S. Gabriel. Mas quais foram as razões e os motivos de que usou o anjo para o persuadir e concluir? É caso digno de admiração, e que singularmente prova da parte de Deus, do anjo, e da mesma Virgem, qual é na sua eleição a melhor parte.
53. Repara Maria na embaixada, insta o celeste embaixador, e as promessas que alegou, para conseguir o consentimento, foram estas: Ecce concipies, et paries Filium, et vocabis nomem ejus Jesum; hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur: dabit illi Dominos Deus sedem David patris ejus, et regnabit in domo Jacob, et regni ejus non erit finis (Lc. 1,31): O Filho de que sereis Mãe terá por nome Jesus, que quer dizer: o Redentor do mundo; este será grande, chamar-se-á Filho de Deus, dar-lhe-á o mesmo Deus o trono de Davi, seu pai, reinará em toda a casa de Jacó, e seu reino e império não terá fim. Não sei se advetis no que diz o anjo, e no que não diz, no que promete, e no que não promete. Tudo o que promete são grandezas, altezas e glórias do Filho; e da Mãe com quem fala, nenhuma coisa diz, e à mesma a quem pretende persuadir, nada lhe promete. Não pudera Gabriel dizer à Senhora, com a mesma verdade, que ela seria a florescente vara de Jessé, que nela ressuscitaria o cetro de Davi, que a sua casa se levantaria e estenderia mais que a de Jacó, que seria rainha sua, e de todas as hierarquias dos anjos, senhora dos homens, imperatriz de todo o criado, e que esta majestade e grandeza também a lograria sem fim? Tudo isto, e muito mais podia e sabia dizer o anjo. Pois por que diz e promete só o que há de ser o Filha, e não diz nem promete, o que há de ser a Mãe? Porque falou como anjo, conforme a sua ciência, e como embaixador, conforme às suas instruções. Por isso, nem ele diz, nem Deus lhe manda dizer, senão o que há de ser seu Filho, porque nas matérias onde Maria tem a eleição livre, o que mais pesa no seu juízo, e o que mais move e enche o seu afeto, são as grandezas e glórias de seu Filho, e não as suas. As de seu Filho, e não as suas, porque as tem mais por suas, sendo de seu Filho; as de seu Filha, e não as suas, porque as estima mais nele e as goza mais nele que em si mesma. Isto é o que, segundo o conhecimento de Deus e o do anjo, e o seu, elegeu Maria na terra, e isto é o que na presença de Deus, dos anjos, e de todos as bem-aventurados tem por melhor no céu: Maria optimam partem elegit.
§VII
Parabém à Senhora da Glória, e oração final.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.