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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Este é o único antídoto contra o veneno da morte; este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades: acabar a vida antes que a vida se acabe. Se a morte é terrível por ser uma, com esta prevenção serão duas; se é terrível por ser incerta, com esta prevenção será certa; se é terrível ser momentânea, com esta prevenção será tempo, e dará tempo. Desta maneira fareinos da mesma víbora a triaga, e o mesmo pó que somos, será o corretivo do pó que havemos de ser: Pulvis es, in pulverem reverteris.

§VI

Quantos mortos que ainda lhes faltam por viver muitos anos! Propósitos: À imitação de Elias, seguindo o conselho do Espírito Santo, demos a Deus o tempo que sempre é seu, enquanto é também nosso, e não quando já não temos parte nele.

Parece-me, senhores meus, que tenho satisfeito ao meu argumento, e tanto em comum, como em cada uma das suas partes, demonstrado a verdade dele, mais pela evidência da matéria que pela força das razões, menos necessárias a um auditório de tanto juízo e letras. Para o que se deve colher desta demonstração, quisera eu que subisse agora a este lugar quem com diferente espírito e eficácia perorasse. Mas já que hei de ser eu, ajudai-me a pedir de novo à divina bondade o favor e auxílio de sua graça, que para matéria de tanto peso nos é necessária.

Tudo o que temos dito e ouvido, é o que nos ensina nas Escrituras a fé, nos santos o exemplo, e ainda nos gentios o lume e razão natural. Mas quando eu vejo e considero o modo com que comumente vivemos cristãos, e o modo com que morrem, acho que em vez de acabarmos a vida antes da morte, ainda depois da morte continuamos a vida. Parece paradoxo, mas é experiência de cada dia. Que morto há nestas sepulturas, e mais nas mais altas, em quem a morte se não antecipasse à vida? Que morto há que não esperasse e presumisse que havia de viver mais do que viveu? Dum adhuc ordirer, succidit me. Nós urdimos a teia, a vida a tece, a morte a corta; e quem há, ou quem houve, a quem não sobejasse depois da morte muita parte da urdidura? É possível, dizia Ezequias, quando o profeta o avisou para morrer, é possível que hei de acabar a vida no meio dos meus dias: In dimidio dierum meorum vadam ad portas inferni. E quem lhe disse a este enganado rei, que aquele era o meio, e não o fim de seus dias? Disse-lho a sua imaginação e a sua esperança. Cuidava que havia de viver oitenta anos, e a morte veio aos quarenta. Eis aqui como continuava e estendia a vida quarenta anos além da morte. Quantos estão já debaixo da terra, que ainda lhes faltam por viver muitos anos! Ouçamos a um destes. Anima mea, habes multa bona in annos plurimos (Lc. 12,19): Alma minha, tens muitos bens para muitos anos. Comede, bibe, epulare (Lc. ibid, 20): Leva-te boa vida, regala-te, gasta largamente e a teu prazer, já que tiveste tão boa fortuna. – Não tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando ouviu uma voz que lhe dizia: Stulte, hac nocte animam tuam repetent a te (Lc. ibid.): Néscio, ignorante, insensato, este dia que passou foi o último de tua vida, e nesta mesma noite hás de morrer. – Morreu naquela mesma noite, e os muitos anos que se prometia de vida: In annos plurimos, que foi feito deles? Ainda se continuaram e foram correndo em vão, depois da sua morte. Verdadeiramente néscio, e pior que néscio, stulte. Os anos de que fazias conta, não eram teus, e os bens que eram teus, serão de outrem. Mas ainda que os anos não foram teus para a vida, serão teus para a conta, porque hás de dar conta a Deus, do modo com que fazias conta de os viver. Quanto melhor conselho fora acabar antes da morte os anos que vivestes, para o remédio, que continuar depois da morte os anos que não viveste, para o castigo!

Agora acabo eu de entender aquele dificultoso conselho do Espírito Santo: Ne moriaris in tempore non tuo (Eclo. 7,18): Não morras no tempo que não é teu. Ne moriaris: Não morras? Logo, na minha mão está a morte. In tempore non tuo: No tempo que não é teu? Logo, há tempo que é meu, e tempo que não é meu. Assim é. Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar, ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente e o sábio, e o bem entendido morrer. E isto é o que nos aconselha quem só tem na sua mão a morte e a vida: Ne moriaris in tempore non tuo.

(continua...)

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