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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Depois que a inveja entiou na alma de Saul (indigna mancha de um rei) entrou-lhe também o demônio no corpo. Fora causa da inveja a funda de Davi, e não havia outro remédio contra aquele demônio, senão a sua harpa. Vinha Davi, tocava a harpa em presença de Saul, e deixava-o o demônio. Fê-lo assim uma vez, e depois que o demônio se saiu, deita mão Saul a uma lança e fez tiro a Davi, diz o texto, para o pregar com ela a uma porede. Que um rei cometesse tal excesso de ingratidão contra um vassalo a quem devia a honra e a coroa, não me admira. Assim se pagam os serviços que são maiores que todo o prêmio. O que me admirou sempre, e o que pondera muito S. Basílio de Selêucia, é que não tentasse Saul esta aleivosia enquanto tinha o demônio no corpo, senão depois que se saiu dele. Quando Saul tem o demônio no corpo, modera a inveja, o ódio, a fúria, e depois que o demônio o deixa, agora comete uma traição e uma aleivosia tão enorme? Sim; agora. Porque agora está Saul em si; dantes estava o demônio nele, dantes obrava como endemoninhado; agora obrava como homem. Se Saul intentara esta infame ação enquanto estava possuído do demônio, havíamos de dizer que obrava o demônio nele; mas quis a providência do céu que o não fizesse Saul senão depois que esteve livre, para que soubéssemos que obrava como homem, e nos guardássemos dos homens mais ainda que do demônio. – O novum, injuriumque facinus! – exclama Basílio. – Daemon pellitur; et daemone liberatus arma capiebat Daemon vincebatur; et hominis mores plus sumebant audaciae. – Era pior Saul livre do demônio, que possuído dele, porque possuído, obrava pelos impulsos do demônio; livre, obrava pelos seus, pelos de homem: Et hominis mores plus sumebant audaciae. – Por isso o demônio, vendo tão feiamente inclinado a Saul, se saiu fora, envergonhando-se que pudesse o mundo cuidar que aquela tentação era sua. Oh! que bem lhe estivera ao mundo que entrasse o demônio em alguns homens, para que fossem menos maus e menos tentadores! Compadeço-me de Davi, honrado, valoroso, fiel, mas enganado com o seu amor e com o seu príncipe. Se não sabes, ó Davi, a quem serves, vê ao teu rei no espelho da tua harpa: emudece-a, destempera-lhe as cordas, faze-a em pedaços. Enquanto Saul estiver endemoninhado, estarás seguro: se tornar em si, olha por ti. Não é Saul homem que queira junto a si tamanho homem.

(continua...)

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