Por Padre Antônio Vieira (1655)
Quis Faraó destruir e acabar os filhos de Israel no Egito, e que meio tomou para isto? Mandou chamar as parteiras egipcianas, e encomendou-lhes que quando assistissem o parto das hebréias, se fosse homem o que nascesse, que lhe torcessem o pescoço e o matassem, sem que ninguém o entendesse. Eis aqui quão ocasionado oficio é o daqueles em cujas mãos nascem os negócios. O parto dos negócios são as resoluções, e aqueles em cujas mãos nascem estes partos, ou seja escrevendo ao tribunal, ou seja escrevendo ao príncipe, são os ministros da pena. E é tal o poder, a ocasião e a sutileza deste ofício, que com um jeito de mão e com um torcer de pena podem dar vida e tirar vida. Com um jeito podemos dar com que vivais, e com outro jeito podemos tirar o com que viveis. Vede se é necessário que tenham muito escrupulosas consciências estas egipcianas quando tanto depende delas a buena dicha dos homens, e não pelas riscas da vossa mão, senão pelos riscos das suas. Si dormiatis inter medios cleros (hoc est inter medias sortes) pennae columbae deargentatae (SI. 67,14): Se estais duvidoso da vossa sorte, penas prateadas, diz Davi. O sentido deste texto ainda se não sabe ao certo, mas tomado pelo que soa, terrível coisa é que a boa ou má sorte de uns dependa das penas de outros! E muito mais terrível ainda se essas penas, por algum reflexo, se puderem pratear ou dourar: Pennae columbae deargentate, et posteriora dorsi ejus in pallore auri.17 Estas penas são as que escrevem as sortes; estas as que as tiram e as que as dão, e talvez a boa aos maus e a má aos bons. Quantos delitos se enfeitam com uma penada! Quantos merecimentos se apagam com uma risca! Quantas famas se escurecem com um borrão! Para que vejam os que escrevem de quantos danos podem ser causa se a mão não for muito certa, se a pena não for muito aparada, se a tinta não for muito fina, se a regra não for muito direita, se o papel não for muito limpo!
Eu não sei como não treme a mão a todos os ministros de pena, e muito mais àqueles que sobre um joelho, aos pés do rei, recebemos seus oráculos, e os interpretam e estendem. Eles são os que, com um advérbio, podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que, com uma cifra podem adiantar direitos e atrasar preferências; eles os que, com uma palavra, podem dar ou tirar peso à balança da justiça; eles os que, com uma cláusula equívoca ou menos clara, podem deixar duvidoso e em questão o que havia de ser certo e efetivo; eles os que, com meter ou não meter um papel, podem chegar e introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem não quiserem; eles, finalmente, os que dão a última forma às resoluções soberanas, de que depende o ser, ou não ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, têm a sua virtude; mas as que estão mais chegadas à fonte do poder são as que prevalecem sempre a todas as outras. São por oficio ou artifício, como as penas da águia, das quais dizemos naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem. Ouçam estas penas pelo que têm de reais, o que delas diz o Espírito Santo: In manu Dei potestas terrae, et utilem rectorem suscitabit in tempus super illam. In manu Dei prosperitas hominis, et super faciem scribae ponet honorem suum.18 Escriba, neste lugar, como notam os expositores, significa o ofício daqueles que junto à pessoa do rei escrevem e distribuem os seus decretos. Assim se chama na Escritura Saraias, escriba do rei Davi, e Sobna, escriba del el-rei Ezequias.19 Diz poiso Espírito Santo: O poder e império dos reis está na mão de Deus, porém a honra de Deus pô-la o mesmo Deus na mão dos que escrevem aos reis: Et super faciem scribae imponet honorem suum. Pode haver ofício mais para gloriar por uma parte, e mais para tremer por outra? Grande crédito e grande confiança argúi, que nestas mãos e nestas penas ponham os reis a sua honra; mas muito maior crédito e muito maior confiança é que diga o mesmo Deus que põe nelas a sua. Quantas empresas de grande honra de Deus puderam estar muito adiantadas, se estas penas, sem as quais se não pode dar passo, as zelaram e assistiram como era justo! E quantas, pelo contrário, se perdem e se sepultam, ou porque falta o zelo e diligência, ou porque sobeja o esquecimento e o descuido, quando não seja talvez a oposição!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.