Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Agora acabaremos de entender a providência que está escondida em uma desigualdade que cada dia experimentamos e não sei se advertimos bem nela. Requer um pretendente, solicita, negoceia, insta, e talvez peita e suborna, e sai despachado. O outro seu competidor que não tem tanta valia, nem tanto do que vale, encomenda o seu negócio a Deus, mete a sua petição na mão de Santo Antônio, manda dizer missas a Nossa Senhora do Bom Despacho, e sai escusado. Pois este é o fruto de negociar com Deus? Estes são os poderes da oração? Esta a valia e a intercessão dos santos? Sim: esta é. Porque eles intercederam por vós, por isto não saístes despachado. Um santo que pregou neste mesmo púlpito nos há de dar a prova. Havia na Índia um fidalgo mui devoto de S. Francisco Xavier. Tinha as suas pretensões com o Senhor Rei D.

João o III. Pediu uma carta de favor ao santo para seu companheiro, Padre Mestre Simão, que era mestre do príncipe, e muito bem visto de el-rei. Escreveu S. Francisco Xavier, e dizia assim o capítulo da carta. Dom fulano é muito amigo da Companhia; tem requerimentos com S. Alteza. Peço a Vossa Reverência, pelas obrigações que devemos a este fidalgo, que procure desviar os seus despachos quanto for possível, porque todo o que vem despachado para a Índia, vai bem despachado para o inferno. Eis aqui as intercessões dos santos. Sabeis por que saiu o outro despachado e vós não? Porque ele teve a valia dos homens, e vós a intercessão dos santos, Esperáveis que vos despachassem bem para o inferno, quanto tínheis encomendado o vosso requerimento à Senhora do Bom Despacho? Dai graças a Deus e à sua Mãe, e ouvi tudo o que tenho dito, e tudo o que se pode dizer nesta matéria, em um texto estupendo de S. Paulo.

Quid oremus, sicut oportet, nescimus: ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus (Rom. 8,26). Nós não sabemos o que pedimos: Nescitis quid petatis. Nós não sabemos pedir o que nos convém: Quid oremus, sicut oportet nescimus. E que faz Deus, autor de nossa predestinação e salvação, quando pedimos o que é contrário a ela? Ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus: O mesmo Espírito Santo, diz S. Paulo, por sua infinita bondade e misericórdia, troca, emenda, e ordena as nossas petições, e ele mesmo pede por nós a si mesmo, com gemidos que se não podem declarar: Gemiribus inenarrabilibus. De sorte que quando pretendemos o que encontra a nossa salvação, nós pedimos na terra, e o Espírito Santo geme no céu; nós fazemos instâncias, e ele dá ais. Ai, homem cego, que não sabes o perigo em que te metes! Ai, que se quer perder aquela pobre alma! Ai, que anda solicitando sua condenação! Ai, que pretende aquele oficio! Ai, que pretende aquela judicatura! Ai, que pretende aquele concelho! Ai, que pretende aquele governo! Ai, que se alcança o que pretende vai para o inferno! Pretende o Brasil: se vai ao Brasil perde-se; pretende Angola: se vai à Angola, condena-se; pretende a Índia: se passa o Cabo de Boa Esperança, lá vai a esperança da sua salvação. Assim geme o Espírito Santo por nos desviar do que pretendemos com tantas ânsias, porque não sabemos o que pedimos: Quid oremus, sicut oportet nescimus.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...910111213Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →