Por Coelho Neto (1898)
Essas noticias ouvidas em tal sitio puzeram em alvoroço os corações dos nautas e o Gama, por esses successos venturosos chamou ao rio dos Bons signaes pondo em terra um padrão dos que trazia o qual por vir da nau S. Raphael, o mesmo nome guardou. Alli ficaram em resguardado porto refazendo o que os ventos estragaram, recompondo o que o mar descompozera.
O Gama, durante as noites, ouvindo o murmulho d'aquellas selvas pujantes que beiravam o rio entre as quaes, pelas horas altas e repousadas, formas monstruosas caminhavam estalando os ramos seccos e atroando o silencio com ululos, sorvendo o perfume das grandes flores que desabrochavam nos ramos que eram viveiros de passaros canoros, lançava os olhos ao céu, crivado de astros palpitantes, como senelle quizesse ler augurios.
Os homens do quarto iam e vinham lentamente vigiando e, na proa, algum insomne, a lembrar-se da Patria que deixara, debruçado sobre o rio claro, suspirava; os mais dormiam, só elle, no castello da popa, solitario, recolhido, pensava n'esse pai longinquo que os horizontes abafavam ao qual devia chegar com as prôas para sua gloria e gloria da sua Patria, tornando ao reino com as amostras da conquista e a chave dos mares largos.
Tão contente estava com os indicios que n’aquella extrema achara que entrou a amar a terra e as arvores e aquellas aguas lentas e aquelles marneis extensos.
Mas, com o correr dos dias abrazados, começou a bordo o soffrimento. Aos homens inchavam as gengivas e faziam-se roxas rompendo um sangue fetido d'entre os dentes abalados; iam-se-lhes as boccas inflammando e, queimados de febre, apodrecidos em vida, mal podiam gemer porque os mesmos gemidos lhes doiam e, se lhes passava alimento ou agua pela bocca torciam-se de dores repellindo-os; outros definhavam lividos, tiritando num grande frio mortal e acabavam, sem que os cirurgiões pudessem allivial-os, com os clerigos junto á maca fallando-lhes de misericordia, a cruz erguida mostrando o céu que se curvava, azul e calmo, sobre aquellas terras de peste. Quantos alli ficaram ! O mesmo Gama se ia perdendo n'um desastre n’agua e a nau de Paulo da Gama esteve a entregar-se na areia perfida d'um banco de onde foi arrastada, com o favor da maré, pondo-se a nado.
D'alli partiram : uns tristes por haver deixado companheiros, outros contentes porque se arredavam de tal sitio. Navegando passaram á vista de tres ilhotas ás quaes não quiz o navegador chegar adiante outras ilhas lhes surgiram mas como a noite caía tenebrosa, detiveram-se os navios até a manhã seguinte ordenando o Gama a Nicoláo Coelho que fosse na sua nau, a mais esguia, sondar aquellas aguas té que chegasse á terra.
Foi-se o valente mas não com tanta ventura que logo achasse caminho livre, antepoz-se-lhe á prôa um baixo extenso que o forçou a virar de bordo, tornando ao fundeadouro mas de terra largavam varios pangaios, com as suas velas de palma expostas a um vento galerno. Isso vendo exultou o Gama que, ao brado de Nicoláo Coelho : «Que vos parece, senhor? Já esta é outra gente.» Demonstrou alegria, ordenando que os navios buscassem fundo mais próximo daqueila ílha.
Os que vinham nos pangaios nao só faziam gestos de amizade como tangiam os seus instrumentos. Abaçanados de côr, fortes de corpo e graciosos trazem abas hombros e fotas nas cabeças, por armas usavam adágas e terçados e, nas beiras mostravam mais cultura do que seus irmãos do littoral.
Recebendo-os a bordo soube o Gama por elles que se achavam em Moçambique terras do dominio do rei de Quilôa governadas por um xeque, de nome Cacoeja. E mais disseram : que alli chegavam mercadores trazendo os preciosos productos da India e ouro de Sofala e levando o que dava a terra fertil. Tambem informaram sobre o reino do Preste João, dizendo que já não distava d'alli grandes jornadas e que, submettidas ao seu poder, muitas cidades mercadoras havia junto ao mar, elle, porém vivia concentrado no coração do reino sendo necessario, para lá chegarem, que montassem camellos pois só esses animaes de força e abstinentes venciam os alcantís e os andurriaes, ao sol vivissimo, sem refresco de sombras. Foi tamanha a alegria a bordo com essas novas que muitos choraram de prazer dando sentidas graças a Deus por os haver posto no caminho que buscavam. E o Gama, ouvindo taes informações, re- solveu levar as naus ao porto de Moçambique para ter confirmação de quanto ou- vira e buscar um piloto que os guiasse á India. E foi Nicoláo Coelho sondar o porto e posto que se lhe houvesse partido o leme achou fundeadouro. Quando as naus entraram viram sobre ancora quatro fustas de mouros que descarregavam e a gente que as guarnecia deteve-se no serviço, vendo chegar o bando navegante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.