Por Lima Barreto (1910)
— Não é de casar... Isto já sei... E...
— Mas de que deve ser então, doutor?
— De entrar para o partido do doutor Melaço.
— Eu sempre, doutor, fui pelo doutor Jati. Não posso...
— Que tem uma cousa com a outra? O senhor divide o seu voto: a metade dá para um e a outra metade para outro. Está aí!
— Mas como?
— Ora! O senhor saberá arranjar as cousas da melhor forma; e, se o fizer com habilidade, ficarei contente e o senhor será feliz, porquanto pode arranjar tanto com um como com outro, conforme andar a política no próximo quatriênio, um lugar de guarda dos mangues.
— Não há vaga, doutor.
— Qual! Há sempre vaga, meu caro. O Felizardo não se tem querido alistar, não nasceu aqui, é de fora, é "estrangeiro"; e, dessa maneira, não pode continuar a fiscalizar os mangues. E vaga certa. O senhor adere ou antes: divide a votação? — Divido então...
Por aí, um dos inspetores veio avisar de que o guarda civil de nome Hane lhe queria falar. O doutor Cunsono estremeceu. Era cousa do chefe, do geral lá de baixo; e, de relance, viu o seu hábil trabalho de harmonizar Jati e Melaço perdido inteiramente, talvez por causa de não ter, naquele ano, efetuado sequer uma prisão. Estava na rua, suspendeu o interrogatório e veio receber o visitador com muita angústia no coração. Que seria?
— Doutor, foi logo dizendo o guarda, temos um louco.
Diante daquele caso novo, o delegado quis refletir, mas logo o guarda emendou:
— O doutor Sili...
Era assim o nome do ajudante do geral inacessível; e dele, os delegados têm mais medo do que do chefe supremo todo poderoso.
Hane continuou:
— O doutor Sili mandou dizer que o senhor o prendesse e o enviasse à Central.
Cunsono pensou bem que esse negócio de reclusão de loucos é por demais grave e delicado e não era propriamente da sua competência fazê-lo, a menos que fossem sem eira nem beira ou ameaçassem a segurança pública. Pediu a Hane que o esperasse e foi consultar o escrivão. Este serventuário vivia ali de mau humor. O sossego da delegacia o aborrecia, não porque gostasse da agitação pela agitação, mas pelo simples fato de não perceber emolumentos ou quer que seja, tendo que viver de seus vencimentos. Aconselhou-se com ele o delegado e ficou perfeitamente informado do que dispunham a lei e a praxe. Mas Sili...
Voltando à sala, o guarda reiterou as ordens do auxiliar, contando também que o louco estava em Manaus. Se o próprio Sili não o mandava buscar, elucidou o guarda, era porque competia a Cunsono deter o "homem", porquanto a sua delegacia tinha costas do oceano e de Manaus se vinha por mar.
— E muito longe, objetou o delegado.
O guarda teve o cuidado de explicar que Sili já vira a distancia no mapa e era bem reduzida: obra de palmo e meio. Cunsono perguntou ainda:
— Qual a profissão do "homem"?
— E empregado da delegacia fiscal.
— Tem pai?
— Tem.
Pensou o delegado que competia ao pai o pedido de internação, mas o guarda adivinhou-lhe o pensamento e afirmou:
— Eu conheço muito e meu primo é cunhado dele.
Estava já Cunsono irritado com as objeções do escrivão e desejava servir a Sili, tanto mais que o caso desafiava a sua competência policial. A lei era ele; e mandou fazer o expediente.
Após o que, tratou Cunsono de ultimar o enlace de Melaço e Jati, por intermédio do casamento da filha do Sambabaia. Tudo ficou assentado da melhor forma; e, em pequena hora, voltava o delegado para as ruas onde não policiava, satisfeito consigo mesmo e com a sua tríplice obra, pois não convém esquecer a sua caridosa intervenção no caso do louco de Manaus.
Tomava a condução que devia trazer à cidade, quando a lembrança do meio de transporte do dementado lhe foi presente. Ao guarda-civil, ao representante de Sili na zona, perguntou por esse instante:
— Como há de vir o "sujeito"?
O guarda, sem atender diretamente à pergunta, disse:
— E... E, doutor; ele está muito furioso.
Cunsono pensou um instante, lembrou-se dos seus estudos e acudiu:
— Talvez um couraçado... O "Minas Gerais" não serve? Vou requisitá-lo.
Hane, que tinha prática do serviço e conhecimento dos compassivos processos policiais, refletiu:
— Doutor: não é preciso tanto. O "carro-forte" basta para trazer 0 "homem".
Concordou Cunsono e olhou as alturas um instante sem notar as nuvens que vagavam sem rumo certo, entre o céu e a terra.
Sili, o doutor Sili, bem como Cunsono, graças à prática que tinham do oficio, dispunham da liberdade dos seus pares com a maior facilidade. Tinham substituído os graves exames íntimos provocados pelos deveres de seus cargos, as perigosas responsabilidades que lhes são próprias, pelo automático ato de uma assinatura rápida. Era um contínuo trazer um oficio, logo, sem bem pensar no que faziam, sem lê-lo até, assinavam e ia com essa assinatura um sujeito para a cadeia, onde ficava aguardando que se lembrasse de retirá-lo de lá a sua mão distraída e ligeira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. A Nova Califórnia. Brasília, DF: Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16813 . Acesso em: 24 abr. 2026.