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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo asas largas, diáfanas, feitas como de névoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a noite.

Entrou. O velho pastor velava diante das brasas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.

AS TRÊS VIRGENS

Quando o menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe baixinho: “Se vira as três virgens que cercaram o infante ungindo-o de luz?”

A Imaculada respondeu no mesmo tom discreto:

- Logo que sai do sono, ainda antes de ver meu filho, dei com elas, imóveis, aclarando toda a caverna, de joelhos diante do recém-nascido.

Não falavam. Não sei quem são. Desapareceram de repente como as estrelas desaparecem. - Seriam anjos? Uma serena voz, saindo das pedras, falou no silêncio:

- A primeira é toda a crença do homem: é a virtude que leva a alma à presença do Altíssimo.

Antes da vinda do Messias era a névoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se; agora é a luz pura e perene, a luz viva que guia ao paraíso através de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos sofrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita, inflexível e segura. É a fé.

O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é Deus. É a mais forte da três. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo da primeira: É a esperança.

Veste-se de ilusões, recama-se de sonhos para distrair a alma, livrando-a do desespero. É como o ramo verde que se inclina à borda dos abismos. É a divina miragem que, através das agruras da vida, reanima o coração combalido, criando perspectivas venturosas.

Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada à fé é a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.

Sem ela a miséria seria um flagelo, a dor seria intolerável. É uma força feita de sonho. Isolada é a fantasia.

A terceira é o amor, é a lágrima que se converte em misericórdia, é a bondade onipotente, a meiguice que salva, a resignação que remite, a paciência que conforta, a lã que agasalha, o linho que estanca o sangue, o lume que aquece. É o conjunto amoroso de todas as beneficências – a caridade. São as três irmãs que acompanham o Messias. Ele tomou-as ao paganismo e converteu-as transmitindo-lhes a sua essência. Eram as Cárites, são as Virtudes. Foram as Graças, são as beneficiadoras.

Com elas Jesus fará a redenção do homem.

Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe os humildes.

Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados. - Não ouviste falar?

- Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se também procurassem o misterioso interlocutor. Mas o menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou. Presto, Maria tomou-o ao colo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto. - Deve ser frio, disse José. - Fome, talvez, disse Maria, ansiosa por dar o peito farto ao pequenino filho.

O PRIMEIRO LEITE

À primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dor aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime martírio, com a alma a brilhar nos olhos que a dor orvalhara de lágrimas.

Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava paragens como a torrente que se despenha de altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha à levada.

O Divino alimentava-se do sofrimento humano e naquelas opalinas góticas de leite – sangue e água fundidos em candura – o céu comungava na terra.

A carne mortal nutria o espírito perene, o efêmero transfundia-se no eterno: as duas colinas alvas tocavam o infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudais, as leis santas, os sábios julgamentos, a benção e o perdão.

A Virgem sorria e o seu colo túrgido ondulava de ventura, enquanto o patriarca, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, cuja chama ressurgia ao sopro da brisa noturna.

Fora ressoavam cânticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.

Por vezes um clarão relampejava diante da gruta à esplêndida passagem rápida de um anjo.

Maria, inclinada sobre o filho, só a ele sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar do leite que ele sugava sôfrego.

Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com seus vergéis floridos, o céu com as suas estrelas fúlgidas.

Que lhe importava a aurora se na penugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ele via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mãe!

Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupilas da criança, via dois pequeninos serafins alegres!

Que lhe importava a imensa alegria universal, se o seu coração transbordava de felicidade com aquele amor! Levantou-se um alarido fora, na estrada obscura. José saiu ao limiar.

(continua...)

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