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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

O estudante sentiu uma pancada forte no coração àquela frase "Não precisas bilhete..." e admirou o romancista. Grande influência do homem! Diante dele, a um gesto breve da sua mão, abriam-se todas as portas, mesmo as dos teatros tão avaramente guardadas. Grande homem! Pudesse ele fazer o mesmo! Entrava gente, aos apertões: senhoras pelo braço dos maridos, sorrindo, com ânsia de se aboletarem, receosas de que já houvesse começado o espetáculo.

Quando Ruy Vaz se adiantou, muito grave, Anselmo coseu-se com ele e, apesar da confiança que depositava no prestígio do grande homem, pálido, temia ser repelido pelos dois cérebros — um ruivo, de pêra, outro velho, gordo, de óculos, que espiava atentamente quantos entravam acumulando os bilhetes na perna gorda.

O romancista fez o estudante passar à frente e, como o ruivo fizesse um gesto como a pedir o bilhete, ele tocou-lhe com familiaridade o ombro dizendo apenas:

— Vem comigo. Tanto bastou para que o deixassem passar. Poderoso Sésamo! Vem comigo! Tão simples palavras faziam com que se acomodassem os exigentes porteiros, tão severos em questões de entradas e de senhas. Ao ver-se no pátio do teatro, Anselmo sentiu a alma dilatada como se houvesse saído de uma prisão e respirou desafogadamente.

— Agora sim...

— Que é?

— Pensei que os homens opusessem alguma dúvida.

— Comigo! exclamou orgulhosamente o romancista. Ora qual! Caminharam e, como enfrentassem com o tablado coberto onde, em torno das mesas, uma multidão alegre fervilhava, um rapaz moreno, de pince-nez, pondo-se de pé com o chapéu levantado acima da cabeça, a toda altura do braço, disse solenemente:

— Saúdo a literatura indígena! e avançando, encolhido e curvado, pôs-se a estalar sonoramente com a língua no palatino; depois, enristando a bengala, deu uma volta nos calcanhares mostrando a multidão que o cercava e, em voz cheia de desprezo, bramiu:

— Vou começar a catequese noturna dos tupinambás. Sou o missionário do espírito, o Anchieta desta taba! E, de novo, fez estrondar a língua atirando uma bengalada a uma das mesas:

— Garçom! Uma Einbeck... vamos! E hirto, o sobrecenho carregado, fitou os olhos no caixeiro, rugindo.

Ruy Vaz dirigiu-se ao moreno e, vendo que Anselmo guardava atitude reservada, interrogou-o como em segredo:

— Não conheces o Neiva?

— De nome, há muito tempo!

O romancista fê-lo avançar e apresentou-o:

— Anselmo Ribas... Paulo Neiva. Os dois rapazes trocaram um aperto de mão e o moreno ofereceu um lugar à mesa que ocupava, onde outros bebiam entre nuvens de fumo. Ruy Vaz era intimo de todos e o Neiva foi apresentando o estudante:

Isto aqui é uma sucursal do Parnaso, com uma dependência mais lucrativa:

a carne seca, dignamente representada pelo nosso correto amigo Victorino Motta, o bem-aventurado.

Um gigante, nédio e rubro, com um ventre quase esférico, sorriu estendendo a mão, gorda e mole como a luva de um esgrimista. O Duarte, rapazinho magro, pálido, com um ricto que lhe dava à fisionomia uma expressão hilariante; o Lins, baixinho, muito moreno, olhos apertados e oblíquos como os dum chim, bigode negro e ralo escorrendo-lhe pelos cantos da boca. Sentaram-se. Ruy Vaz, a pretexto de ir falar ao Heller, pediu um minuto e desapareceu na multidão. O Neiva, irrequieto, lançava os olhos um e para outro lado, desfechando sátiras, analisando os que passavam, à pressa. A campainha retiniu e o povo precipitou-se para o recinto ficando apenas alguns rapazes à mesa, entre cocottes, derriçando.

— Sabe ler? — perguntou abruptamente o Neiva dirigindo-se a Anselmo, enquanto o garçom ia enchendo os copos com a cerveja que o Motta mandara vir. O estudante sorriu vexado.

— Coragem, meu amigo! — bradou o Neiva; há vergonhas maiores. É poeta, aposto?! Antigamente era a lira o símbolo dos poetas, agora é o pince-nez... Que gênero?

— Ensaio-me na prosa, disse timidamente Anselmo. O Neiva ergueu-se violentamente como impelido por uma mola e encarou-o:

(continua...)

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