Por Raul Pompéia (1880)
Caminharam os exploradores dois minutos por cima de ervas e arbustos que lhes molharam as calças, penetrando em seguida em um bosque difícil de trilhar, graças ao emaranhado de trepadeiras e cipós, juntamente com as moutas densas que as facas cortavam desapiedadamente.
O caminho difícil cessou quando os primeiros declives da montanha se fizeram sentir. Estavam os homens bastante arredados do Iapurá, sem ainda ter encontrado o menor vestígio dos malfeitores.
Viram-se, não é o termo, sentiram-se em uma espécie de caminho que não parecia aberto pela natureza.
— Estamos em uma picada, notou o paraense que seguia, na frente.
— Que talvez nos leve ao nosso destino, disse outro.
Estas palavras trocadas em voz baixa foram as primeiras. Reinava a mais completa escuridão na mata que Eustáquio percorria.
Os seus companheiros, como cegos, apalpavam o caminho com a coronha das espingardas e andavam devagar. A expedição era ousada e seria impossível se a floresta não fosse mais ou menos conhecida pelos paraenses.
Eles caminhavam. Para onde? Não sabiam. O que esperavam? Tudo.
Estavam preparados para fazer frente aos inimigos. Que inimigos?
Eles não conheciam.
Debaixo dos seus passos fugiam reptis, bruscamente despertados, e uma vez puderam ouvir a pouca distância o grito rouco de uma onça, que acelerou-lhes as palpitações do coração fazendo que armassem as espingardas.
A intenção de Eustáquio era reconhecer o abrigo dos seus perseguidores e dar-lhes combate se fosse possível, não queria porém que fosse conhecida a sua presença na floresta, por essa razão temia alguma luta com feras.
Deram mais alguns passos, mas pararam logo, prestando atenção a um murmúrio indeciso, que não vinha do alto da montanha, porém, ao contrário, da planície, e não podia ser portanto o ruído de um acampamento de índios, que só existiam do outro lado das colinas.
— Serão eles? murmurou Eustáquio.
— Quem sabe? respondeu-lhe um homem.
O marido de Branca e seus homens já se tinham voltado e examinavam as matas que se estendiam um pouco abaixo deles.
Nada viram.
Retomaram o caminho que tinham já atravessado e principiaram a descer a ladeira que levava ao cimo da pequena montanha.
Examinaram de novo a floresta. Do lado direito cousa alguma distinguiram senão as trevas da noite, na frente ainda nada, mas à sua esquerda avistaram ao longe, nas profundezas do bosque, um clarão vermelho. Eustáquio apontou para esse lugar e exclamou:
— Lá estão os assassinos!
Tinha na voz uma entonação de ódio.
Abandonando a picada, os exploradores seguiram em linha reta para o clarão. A lama do chão molhado atolava-os até acima dos joelhos, os espinhos abriam rasgões nas calças e nos capotes chegando mesmo a feri-los, contudo eles avançavam com indomável frenesi. Encontraram nova vereda e continuaram. Percebiam melhor o clarão. Era uma fogueira que brilhava sob a folhagem e o ruído que se ouvia proveniente de seu crepitar.
Já próximos da fogueira, eles pararam. Estavam vacilantes, não por medo, porque o seu ânimo não conhecia medo, porém por essa emoção que sente o soldado antes do combate e que invade o espírito mesmo do herói, a qual se transforma logo em ardor e lhe dá a coragem que não vê perigos.
O marido de Branca, aproveitando-se da luz vermelha e fraca que vinha da fogueira, viu no relógio que eram quase dez horas. A conselho de um dos paraenses, deixaram todos o caminho para adiantarem-se de rastos pelo mato. Esta manobra, habilmente executada, levou-os até o fogacho que via-se cintilar através das folhas... Espessa massa de arbustos veio ocultar-lhes inteiramente o fogo. Nada podiam mais ver, embora ouvissem perfeitamente o estalo das madeiras que ardiam.
Aí mesmo elevava-se, retorcendo-se em amplas rugas o tronco enorme de uma gigantesca castanheira, que se esgaIhava no alto. Essa árvore lembrou a Eustáquio a idéia de subir a ela, para, de cima, observar melhor o que se passava embaixo.
Assim, sendo posta em execução a idéia, subiram todos auxiliando-se uns aos outros.
Um galho, que se inclinava horizontalmente por sobre a fogueira. levou-os a um ponto de observação. Outro melhor não podiam achar.
Ramos frondosos os encobriam por todos os lados e através desses ramos podiam facilmente ver tudo, não obstante o calor que aí chegava e as lufadas de denso fumo, que por vezes se enovelavam nas folhas.
Abaixo deles formava-se uma espaçosa clareira, no meio da qual uma grande fogueira carbonizava estrepitosamente alguns troncos. As chamas intensas inundavam-na de rubros eflúvios, que transformavam os troncos vizinhos em barras de ferro em brasa e, do meio delas, subiam fagulhas luminosas que se apagavam no alto ao tocar nas folhas.
O zimbório de folhas úmidas, refletindo os infernais clarões do fogo, coroava dignamente um painel sinistro. Ao lado da fogueira viam-se dous negros, cujas faces lustrosas recebiam em cheio a sua luz, que as cobria das mais horríveis cores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.