Por Raul Pompéia (1882)
Brilhante correu-lhe a existência. Fortaleceram-se os sentimentos despóticos que lhe haviam plantado n’alma as adulações corruptoras dos seus primeiros mestres, ao passo que não desaparecia o gérmen da falsidade que se criara da necessidade de iludir aqueles a quem o duque temia em pequeno.
Qual foi a conseqüência?
A conseqüência foi que derramaram-se precoces as alvuras do encanecimento por sobre a cabeça do duque; e, quando, em momento de rápida meditação, o fidalgo se concentrava para fazer um exame de si mesmo, reconheciase vazio dos recursos de que necessitava para apresentar-se em rodas ilustradas, onde queria figurar, ao mesmo passo que, pensando na vida, achava-se intimamente parecido com o retrato moral de seu pai que lhe pintavam as tradições de família, exceção feita das aventuras heróicas e dos rasgos de franqueza.
Por isso é que contavam à boca pequena uns episódios grotescos do duque de Bragantina em várias sociedades científicas e literárias, onde costumava apresentar-se; por isso, também, o arrabalde de Santo Cristo ressoava surdamente com os boatos tímidos das façanhas amorosas de certo homem de barbas brancas.
Por felicidade do duque ele unira a sua existência à de uma generosa fidalga, que sabia amargar em silêncio todas as brincadeiras do esposo e distraía-se dos sofrimentos domésticos, entregando-se de corpo e alma à mais antiga prática da caridade para com os que necessitavam dela.
Os moradores da pequena aldeia consagravam à duquesa uma verdadeira adoração. Raro era aquele que não a tinha visto à sua porta, indagando do estado de qualquer enfermo, aconselhando o uso de um medicamento, ou dando disfarçadamente uma esmola...
Esta santa senhora esforçava-se por contrabalançar com as suas virtudes os excessos do duque.
Em atenção a ela, algumas pessoas de consideração permaneciam na roda perigosa do marido. Por essa razão, os amigos do duque não eram todos da ordem dos alegres companheiros de passeio pelas ruas de Anatópolis.
A estes, costumava o grande fidalgo dar a honra da sua companhia durante o verão. Aos sábados, porém, vinha só, ou com a duquesa, visitar a quinta de Santo Cristo.
Na época que começavam os sucessos da nossa história, apesar do estio, não se achava o duque em Anatópolis.
Viera de lá por um dos sábados.
Tinha de voltar na segunda-feira e já o povo anatopolitano se preparava para recebê-lo, entre regozijos e foguetes. Mas o duque, não apareceu. Era uma grave contrariedade para aqueles felizes desocupados. Tinham talvez de passar uma semana sem ver na rua a esplêndida e branca figura do fidalgo de chapéu Chile.
Um desgosto para eles e um motivo de tristeza para a cidade.
Faltar aos seus habituais não era regra do duque. Pelo contrário. Ele era o que se pode chamar a pontualidade em pessoa. A pontualidade, porém, possui um sério inimigo que, aliás, não é incompatível com ela: o capricho.
O duque era um homem caprichoso. Ainda uma conseqüência do servilismo dos maus educadores.
Como homem caprichoso, não era de admirar que deixasse uma vez de se apresentar em Anatópolis conforme o costume.
O duque de Bragantina tivera na verdade um dos seus caprichos.
Tinha dito na quinta que, depois do baile do marquês de ***, em cujo palácio passaria a noite, iria diretamente a Anatópolis, sem voltar a Santo Cristo. Um motivo qualquer ou mesmo motivo nenhum o fizera resolver o contrário.
Parece que o capricho explicava-se por uma incumbência de que o duque encarregara o seu íntimo Manuel de Pavia...
Por um motivo ou outro, o fato era que, no dia seguinte ao baile do marquês de ***, às dez horas da manhã, subia o duque as avenidas do palácio de Santo Cristo, contra toda a expectativa.
Nessa manhã, gravíssimas coisas se haviam passado.
O palácio do duque era um inferno. Uma atividade doentia se apoderara da mordomia, da criadagem, de todos os que residiam no palácio ou na quinta.
Viam-se os criados correndo pelos corredores. O particular do duque, que saíra do palácio na véspera, fora chamado a toda pressa. Os habitantes da aldeia situada ao norte do parque afluíam às portas do palácio. Perguntava-se, procuravase, indagava-se, discutia-se, contrariava-se; havia exacerbações, impertinências, iras, temores, dúvidas, interrogações.
O palácio era um inferno, dissemos.
Imagine-se.
Acabava de ser invadido pela polícia.
Haviam comparecido delegados, inspetores, a polícia toda, simbolizada pelo ativo e enérgico sr. dr. Louro Trigueiro. A invasão do palácio não se fizera, porém, em nome da lei, contra a vontade de seus moradores. Muito diverso disso. As autoridades tinham sido chamadas pela gente da casa.
Apenas assomou ao portão o duque de Bragantina, correram a ele, brancos, lívidos de contrariedade, de receio e de indecisão, todos os que estavam na quinta. O mordomo vinha tremendo como um gotoso; os criados vinham pálidos como se caminhassem para uma guilhotina; o particular não teve ânimo de apresentar-se. Ficou prostrado em um dos aposentos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.