Por Raul Pompéia (1881)
Pela manhã, quando aparecia o padre na sacristia, se o sacristão era detido, passava este os mais desagradáveis instantes da sua existência. Além da missa, que ele ajudava com alguma paciência, outros tormentos lhe eram marcados. Ora, eram dois pombinhos que chegavam a ligar-se perante Deus, ora, um pequeno candidato a um lugar na arca da salvação... E Brício era forçado a postar-se estupidamente ao lado dos pombinhos e ao lado do candidato.
O sacristão vingava-se. Resmungava contra matrimônios e batismos, que tanto tempo lhe roubavam à caça de passarinhos. Se lhe metiam nas mãos alguma vela, partia-a em pedaços, que só o pavio não deixava cair. Estas vinganças eram as brejeiradas com que o vigário menos simpatizava. Eis porque, depois de qualquer ato religioso, uma cabecinha esperta mostrava-se nas janelas do campanário... Lá estava o sacristão esperando que o padre C... esquecesse o seu delito. E pouco esperava.
À tarde, já feitas as pazes com o vigário, Brício o deixava no banco da sacristia. Trocava então o ambiente de flores em decomposição, que tresandavam as melancolias da Matriz, pelo ar puro dos descampados, tão cheio desse perfume indefinível das últimas como das primeiras horas do dia. Ia para o campo armar esparrelas aos pássaros ou rachar taquaras e fazer gaiolas para os íncolas miúdos das selvas.
Uma vez, era ao descair de um belo dia. As cambiantes roxo-negras do crepúsculo vinham ganhando o anilado celeste. As tintas de ouro do Ocaso expiravam afogadas em róseos vapores...
Nessa hora alguns campônios contentes seguiam pela estrada de.... Iam da povoação para a matriz. Havia entre eles duas mulheres, uma das quais carregava risonha uma criança nos braços. A criança ia batizar-se.
O préstito caminhava... De repente parou... Uma exclamação de raiva partira do meio dos silvados, que margeavam o caminho.
Os campônios olharam em redor, talvez assustados. Um menino lhes apareceu então, mergulhado até a cintura em montes de mato rasteiro.
- Ora! dizia ele irado. Espantaram o meu passarinho!
Os rústicos que, sem o saber, haviam afugentado uma avezinha, no momento em que se ia deixar prender pela armadilha do pequeno caçador, riram-se da exclamação e seguiram para a igreja.
Entretanto, o menino aproximou-se da sua armadilha. Estava intacta; porém o passarinho, prestes a cair, voara embora.
Franziu o senho e pôs-se a olhar alternadamente para o seu alçapão vazio e para o grupo de camponeses, que seguia para a matriz.
Ah! uma boa pedrada!... murmurou ele, com os dentes cerrados.
- Mas não! disse, depois de refletir. Vão batizar o filhote. Não é assim?... Muito bem... Ficarãosem sacristão.
Brício, pois o caçador não era outro, tinha formado o seu plano. Na ocasião em que o batizado chegava à igreja, o sacristão entrava no povoado.
Encaminhou-se este para a casa onde moravam ele e o vigário. Não quis entrar. Assentou-se na soleira da porta e aí ficara alguns minutos, quando um seu amiguinho chegou correndo e gritoulhe.
- Brício, fuja! O Sr. vigário está lá em casa a perguntar por você e provavelmente virá aqui, váesconder-se... Ele está furioso... Diz que você o deixou sem sacristão...
Brício soltou uma gargalhada franca e ruidosa:
- Ah! disse ele. Não tiveram sacristão. Nada mais justo...
O amiguinho do sacristão arregalou os supercílios com um ar pasmado.
- Não me entende. Não é?... Eu te explico... Um passarinho, antes de recolher-se ao ninho,pousou no meu alçapão... lá no caminho. Estava a cair, quando uns tratantes apareceram, levando um pequeno para batizar-se. Espantaram-me o passarinho e riram-se de mim... Agora eu rio-me deles... Espantando o passarinho, espantaram o sacristão... Bem feito! Não acha?
- Bem feito! Bem feito... Mas o mau é que os tais do batizado brigaram com o Sr. vigário, porfaltar o sacristão, e juraram que se haviam de mudar da freguesia para não voltar a uma igreja tão...
- Oh! oh! Que logro!
- Sim! mas o Sr. vigário está seriamente zangado por isso... com você... E fuja, Brício! Aí vemgente!
Brício sumia-se por um lado, quando por outro mostrou-se o padre C... voltando uma esquina.
Ao ver o amigo do sacristão, o sacerdote dirigiu-se a ele:
- Você viu o Brício?
- Não, senhor, respondeu o menino.
E se afastou do padre, que ficou mordendo o beiço, ante a mentira do pequeno.
- Este é outro, disse ele, a meia-voz. Pensa que eu não ouvi-lhes a conversa...
Tinha já Brício chegado à igreja e se acomodara na torre.
Dentro em pouco avistou, caminho da matriz, o vigário
Vinha devagar, por causa da sua moléstia. Brício teve então umas das suas lembranças... E com elas havia várias vezes apaziguado o sacerdote.
- Bom, disse consigo, ele me há de avistar... Se me mandar descer, eu direi que apanhei umreumatismo que não me deixa andar quase... Ótima razão!
É a mesma que ele tem para não subir. O reumatismo que não o deixa subir, porque não me impedirá de descer?... Mais tarde descerei sem receio...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.