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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

No combate, certo, nenhum é capaz de entrar e sair, como o prussiano, com um podômetro preso à bota — é desordenado, é revolto, é turbulento, é um garoto heróico e terrível, arrojando contra o adversário, de par com a bala ou a pranchada, um dito zombeteiro e irônico. Por isto se imprópria ao desdobramento das grandes massas nas campanhas clássicas. Manietam-no as formaturas corretas. Estonteia-o o mecanismo da manobra complexa. Tortura-o a obrigação de combater adstrito ao ritmo das cornetas; e de bom grado obediente aos amplos movimentos da estratégia, seguindo, impassível, para os pontos mais difíceis, quando o inimigo lhe chega à ponta do sabre quer combater a seu modo. Bate-se, então, sem rancor, mas estrepitosamente, fanfarrão, folgando entre as cutiladas e as balas, arriscando-se doidamente, barateando a bravura. Fá-lo, porém, de olhos fixos nos chefes que o dirigem e de cuja energia parece viver exclusivamente. De sorte que a mínima vacilação daqueles tem, de chofre, extintas todas as ousadias e cai num abatimento instantâneo salteado de desânimos invencíveis.

Ora, naquela ocasião, tudo vaticinava aos expedicionários a vitória. Com tal chefe não havia cogitar em reveses. E endireitavam firmes para a frente, impacientes por virem às mãos com o adversário esquivo. Vendiam escandalosamente a pele do urso sertanejo. Gizavam antecipadas façanhas; coisas de pasmar, depois, aos ouvintes crédulos e tímidos; cenas jocotrágicas — lá dentro, na tapera monstruosa, quando a varressem a tiro. E faziam planos bizarros, projetos prematuros, iniciados todos por uma preliminar ingênua: "Quando eu voltar... ".

Alguns, às vezes, saíam-se com um pensamento extravagante, e no burburinho confuso passava, sulcando-o, um ondular de risos mal contidos...

Além disto, aquela manhã resplandescente os alentava. O belo firmamento dos sertões arqueava-se sobre a terra — irisado — passando em transições suavíssimas do zênite azul à púrpura deslumbrante do oriente.

Ademais o adversário que deixara livre até ali o caminho, desdenhando os melhores trechos para o cortar, ameaçava-os de mil único contratempo sério: o toparem vazio o arraial sedicioso.

Assustava-os esse desapontamento provável; a campanha transformada em passeio militar penoso; a volta inglória, sem o dispêndio de um cartucho.

CAPÍTULO III

PITOMBAS

Iam nestas disposições admiráveis quando chegaram a Pitombas.

O pequeno ribeirão que ali corre, recortando fundamente o solo, ora ladeia, ora atravessa a estrada, interrompendo-a, serpeante. Por fim a deixa antes de chegar ao sítio a que dá o nome, arqueando-se em volta longa, um quase semicírculo de que o caminho é a corda.

O PRIMEIRO ENCONTRO

Tomou por esta a tropa. E, quando a vanguarda lhe atingiu o meio, estourou uma descarga de meia dúzia de tiros.

Era afinal o inimigo.

Algum piquete de sobre-ronda à expedição, ou ali aguardando-a, que aproveitara a conformação favorável do terreno para um ataque instantâneo, ferindo-a de soslaio, e furtando-se a seguro pelas passagens cobertas das ribanceiras do rio.

Mas atirara com firmeza: abatera, mortalmente ferido, um dos subalternos da companhia de atiradores, o alferes Poli, além de seis a sete soldados. Descarregara as armas e fugira a tempo de escapar à réplica, que foi pronta.

Para logo conteirados os canhões da divisão Salomão, a metralha explodiu no matagal rasteiro. Os arbustos dobraram acamando-se, como à passagem de ventanias ríspidas. Varreram-no.

Logo depois nos ares, ainda ressoantes dos estampidos, correu triunfalmente o ritmo de uma carga, e destacando-se, desenvolvida em atiradores, do grosso da coluna, a ala direita do 7.° lançou-se na direção do inimigo, atufando-se nas macegas, a marche-marche, roçando-as a baioneta.

Foi uma diversão gloriosa e rápida.

O inimigo furtara-se ao recontro. Volvidos minutos, a ala tornou à linha da coluna entre aclamações, enquanto o antigo toque de "trindades", era agora o sinal da vitória, soava em vibrações altíssimas. O comandante em chefe abraçou, num lance de alegria sincera, o oficial feliz que dera aquele repelão valente no antagonista, e considerou auspicioso o encontro. Era quase para lastimar tanto aparelho bélico, tanta gente, tão luxuosa encenação em campanha destinada a liquidar-se com meia dúzia de disparos.

"Esta gente está desarmada..."

As armas dos jagunços eram ridículas. Como despojo os soldados encontraram uma espingarda pica-pau, leve e de cano finíssimo, sob a barranca. Estava carregada. O coronel César, mesmo a cavalo, disparou-a para o ar. Um tiro insignificante, de matar passarinho.

— Esta gente está desarmada... — disse tranqüilamente.

(continua...)

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