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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

E Montezuma, receoso de que o homenzinho levado pelo entusiasmo, quisesse improvisar um discurso, pagou e despediu-se:

— Às ordens de vossoria, Timóteo de Almeida. — Sim, até outra vez.

Durante oito longos e agitados dias o povo festejou, com entusiasmo, a promulgação da lei igualitária. Anselmo, que conseguira o dom da ubiqüidade para poder gozar de todas as festas suntuosas e alegres que foram celebradas, como se já se houvesse habituado àquela vida de atropelo, acordando com o silvo agudo da máquina de uma fábrica, estirou os braços e bocejou com preguiça, deixando-se ficar na cama, a olhar o papel do quarto, manchado de umidade.

— E agora, seu Anselmo? A campanha está vencida... Quererá ainda o Patrocínio continuar com a Cidade do Rio? Com que programa? Enfim...

Levantou-se molemente, foi ao banheiro e, refrescado, vestiu-se e saiu.

A vida retomara o seu curso normal: pulsavam as grandes máquinas das oficinas, caminhões rodavam carregados, turmas de crianças, com os sacos a tiracolo, seguiam a caminho dos colégios. Reviviam os pregões dos vendedores ambulantes. Nas esquinas o calçamento estava deslocado, havia pirâmides de paralelepípedos e covas fundas; pilhas de sarrafos e panos sarapintados atravancavam as calçadas — eram os restos dos coretos que os operários desfaziam com pressa como bárbaros que destruíssem uma cidade. Escudos e lanças eram levados em carroças e calceteiros andavam a reparar as ruas esboroadas. Aqui, ali, às janelas, ainda esvoaçavam flâmulas esquecidas e bandeiras, muito espichadas e encolhidas, pendiam moles, como fatigadas. A cidade tinha um ar morno de cansaço. A rua do Ouvidor, acamada de areia, era como uma estrada fofa onde o rumor dos passos morria e toda a vida parecia decorrer, morosa e derreada, de um bocejo cavo e lento, de tédio.

Entrando na Cidade do Rio Anselmo perguntou por Patrocínio. "Já ali estivera, muito cedo, com um corretor", disse o gerente. Subiu. As salas estavam ainda desarranjadas. Grandes ramos de flores murchas jaziam pelos cantos, em abandono triste; bandeiras enchiam uma grande lata; do teto pendiam sanefas esvoaçantes e corimbos e sobre a mesa central, entre jornais, havia uma corbeille atufada de rosas dentre as quais passarinhos, de asas abertas, pareciam querer fugir para o espaço luminoso.

Anselmo procurou umas tiras e, afastando velhos ramalhetes, que entulhavam a sua mesa, pôs-se a escrever maquinalmente. Embaixo, na oficina, os compositores chalravam. Justamente terminava a crônica e começava a rubricar o noticiário quando Patrocínio apareceu esbaforido com o chapéu derreado à nuca. Atirou-lhe uma palmada ao ombro e sentou-se à secretária procurando alguma coisa nas gavetas.

— Então, José... Que vamos fazer agora?

— Heim? Escrevia, muito inclinado, de costas para o secretário.

— Qual é o teu programa?

— Que programa? Ergueu-se e, sorrindo, estendeu a mão: Dá cá um cigarro. Perguntas qual é o meu programa?

— Sim. Conquistaste o teu ideal e agora...?

— Agora?... E, rindo, inclinou-se ao ombro do companheiro, dizendo-lhe ao ouvido: Agora vou ali ao banco com esta letra arranjar dinheiro. Os rapazes estão lá embaixo trabalhando e... Já almoçaste?

— Ainda não.

— Então espera-me no Globo, ao meio dia. Ia saindo, mas voltou-se: Olha, manda limpar a redação que está imunda, ouviste?

E desceu as escadas precipitadamente.

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