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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— O caso foi o conseguinte. Os dois, o grego mal o mulato, fizeram-se de boa amizade, sempre juntos, mas não era pelos olhos do mulato que o grego andava perdido, que ele até, Deus não me castigue, tinha uma cara de desmamar crianças, o grego andava de olho mas era na cachopa, que era destorcida. E vai daqui e vai dali um dia zás! O grego meteu-se em casa e começaram os presentes e o homem ficou embeiçado duma vez, que até o serviço esquecia e, quando vinha à banca, em vez de tratar da vida, punha-se a arrancar suspiros e até tratava mal a freguesia. Estava virado duma vez. O mulato não dava pela coisa e a marosca já ia adiantada. Uma manhã, foi o diabo que se meteu no meio, o mulato estava aqui muito bem, a fazer o seu mercado quando, de repente, atirando a faca p'rá cima da banca, chamou um companheiro, entregou-lhe o negócio e coriscou por aí fora que nem um cão danado lhe tivesse ferrado os gravetos. Ainda me lembro que o Zé da Terceira perguntou se ele fugia do arrecrutamento. Eu sabia do caso, mas nunca pensei que o diabo do grego houvesse arranjado as coisas tão depressa. Eram onze horas, mais ou menos, quando a notícia bateu no mercado — que o grego havia esvaziado o bucho do mulato com uma língua de ferro.

— Por causa da rapariga? — perguntou Montezuma.

— Por minha causa não foi, isso garanto a vossoria. O mulato encontrou o grego no quente e, como dói à gente gastar o seu dinheiro com uma traidora, o rapazinho, queimado, desmunhecou com a navalha em cima do grego, que não ficou partido de meio a meio porque o diabo tem santo. Saltou da cama e, ligeiro que nem um raio, espetou o mulatinho, que ficou com tudo exposto e acabou sem ter tempo de tomar o Cristo. O grego veio logo p'rá praia, meteu-se num bote e mandou cortar para a ilha do Governador. Mas os manos foram dar com ele e lá o têm na casa-grande até que o Senhor seja servido.

— O mulato morreu?

— Se morreu!? Pois vossoria queria que um homem naquelas condições vivesse? Morreu e bonito.

— E a mulata?

— A gente sabe lá dessas criaturas? Anda por aí, hoje com um, aminhá com oitro. Já me andou por aqui a fazer fosquinhas, mas eu não quero endrominas com mulher que já puxou sangue. Que se arranje por lá com quem quiser. Comigo é que não, não tenho estômago para essas coisas. Não há nada como a gente viver com o que é seu, deixem lá.

— É casado?

— Casado? Eu! Não, senhor. Vivo como casado, mas sou independente. Quando não me servir, boa noite! Passe muito bem e venha outra. Senhor doutor, vou para os quarenta e tenho visto muita coisa. Dois homens não brigam senão por mulher. Se vossoria vir um desgraçado com um palmo de ferro no corpo pode jurar que foi por questão de mulher ou de jogo, que é outra coisa danada. Eu também já estive para me perder, cheguei mesmo a meter na cava do colete o ferro, mas Nossa Senhora alumiou-me e, em vez de fazer uma asneira fiz uma coisa de homem de juízo — fui p'rá casa, agarrei a mulher pelo gasnete, dei-lhe um pontapé e mandei-a com Deus. Foi logo p'r'uma rótula e ainda me escreveu cartas, pedindo perdão e jurando que se havia de portar como uma santa; mas eu.. moita. Não, que quem escapa duma queda não deve ir espiar o lugar donde esteve p'rá cair. Que se arranje! Vai mais uma dúzia? Estão frescas e são de rocha. Eu cá não vendo ostras de navio; não, que tenho consciência. Já um pobre senhor, por sinal que era médico, escapou da morte por ter comido umas endiabradas, que vieram do casco dum pontão. Eu cá posso garantir a minha fazenda.

— Estão boas.

— Ah! E saborosas. Afiou a faca na borda da tábua, e, com um sorriso, para continuar a palestra, disse: Antonces agora não há mais escravos?

— Felizmente! — disse Anselmo sorvendo uma ostra.

— Felizmente, diz vossoria muito bem. Eu é porque sou pobre, e não ia oferecer um rico presente ao senhor Patrocínio. Grande homem! Aquele é como o Pombal que acabou com os jesuítas. De homem assim é que nós precisamos. Era uma vergonha, isso era! Um país rico como este não precisa de escravos. Eu digo a vossoria: se fosse coisa da gente fazer com armas, eu mesmo, estrangeiro como sou, saía p'ra rua e havia de fazer o meu filé. Porque, verdade, verdade, eu, com ódio, sou homem p'ra mandar um freguês desta p'ra melhor, num tempo; mas, a sangue frio, juro por Deus! Sou incapaz de bater num cão, num cão! Que até me perco muitas vezes pelo coração, e quando lia a relação dos castigos que sofriam os pobres negros, os fígados subiam-me à goela, palavra de honra. O senhor Patrocínio ganhou o céu.

— Conhece-o?

— A quem? Ao Zé do Pato? Ora! Meu freguês. De vez em quando aqui vem. Não come muito, é de pouco comer, meia dúzia d'ostras e já diz que tem p'ra o dia todo.

Tomou um ar grave e, limpando as mãos a um pano sórdido, disse como se jurasse:

— Agora ele pode vir aqui cando quiser; não lhe cobro vintém, sim, porque é até vergonha cobrar dum homem como aquele. — Apoiado! — afirmou o Neiva.

(continua...)

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