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#Sermões#Retórica

Sermão da Rainha Santa Isabel

Por Padre Antônio Vieira (1674)

26. Não esteve a maravilha em converter as moedas em rosas, senão em quê? Em dizer são rosas, e serem rosas. Serem rosas, só porque Isabel lhe chamou rosas, é maravilha só da boca de Deus. Ponderação admirável de São Paulo: Qui vocat ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt (Rom. 4, 17). Deus chama com tanta verdade as coisas que não são, como aquelas que são. – E esta é a maior glória do seu poder, e o maior poder da sua palavra, porque basta que ele mude os nomes às coisas, para que elas mudem a natureza, e o que era deixe de ser, e o que não era, seja. Mas, quantas vezes fez Deus esta maravilha? Uma só vez, e no maior milagre dos seus milagres, e na maior obra de sua onipotência. Na instituição do Diviníssimo Sacramento quis Cristo que o pão se convertesse e transubstanciasse em seu corpo; e o que fez para isso? Disse que opão que tinha nas mãos era seu corpo: Hoc est corpus meum: (Lc. 22,19), e bastou que chamasse seu corpo ao pão, para que o que era pão, deixasse de serpão, e o que não era seu corpo, fosse seu corpo. Na criação do mundo não fez Deus semelhante maravilha. Mandou que se fizessem as coisas, e fizeram-se: Ipse díxit, et facta sunt (Sl. 32, 9); porém, no Diviníssimo Sacramento, para o qual tinha reservado os maiores poderes do seu poder, fez que fosse seu corpo o que era pão, só com lhe chamar seu corpo: Vocat ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt. O mesmo fez Isabel. Não levantou as mãos, não orou, não pediu, não mandou, só disse que eram rosas as moedas, e foram rosas. O chamar foi produzir; e o dizer que eram, foi fazer que fossem o que não eram: Vocat ea quae non sunt, tanqamo ea quae sunt. Em Cristo foi poder ordinário; em Isabel poder delegado, mas infinitamente maior que todos os poderes reais.

27. Os reis também arremedam, ou querem arremedar a Deus na soberania deste poder. Cobri-vos marquês, assentai-vos duque. Só com o rei vos chamar marquês, sois marquês; só com vos chamar duque, sois duque. Mas tudo isso que vem a ser? Um nome; no demais sois o mesmo que dantes éreis. Podemos reis dar nomes, sim, mas dar ser; ou tirar ser; ou mudar ser; não chega lá a sua jurisdição, por mais poderosos que sejam. Depois que Deus criou o mundo, e o povoou, e fez a Adão rei e senhor de todo ele, mandou que todos os animais viessem à presença do mesmo Adão, para que ele lhes pusesse os nomes: Adduxit ea ad Adam, ut videret quid vocaret ea (Gên. 2,19). E por que não pôs Deus os nomes aos animais, e quis que lhos pusesse Adão? Judiciosamente S. Basílio de Selêucia Partiamur hujus fictricis solertiae gratiam: me cognoscant artificem naturae lege, te dominum intelligant apellatione nominis: Quis Deus que Adão pusesse os nomes aos animais, para partir com ele o império, e mostrar a diferença que havia de um a outro: Eu, Deus, e tu, rei do universo; eu Deus, porque dei o ser aos animais; tu rei, porque lhes pusestes os nomes. – De maneira que o mais a que pode chegar um rei, ainda que rei de todo o mundo, é pôr nomes e dar nomes; fazer que vos chamais dali por diante o que ele vos chamou: Omine quod vocavit Adam animae viventis, ipsum est nomem ejus.30 Porém fazer, com esse nome, que o que não era seja, e que esse mesmo chamar seja dar ser, é jurisdição incomparavelmente mais soberana, por natureza, só de Deus, por delegação, só de Isabel. Enquanto rainha, podia dar nomes, mas nomes que não eram mais que nomes; enquanto santa, deu nomes que davam ser e mudavam ser; e por isso maior rainha que todas as rainhas.

28. Por fim dos poderes de Isabel, quero acabar com aquele poder que tudo acaba, e que pode mais que os que tudo podem, a morte. A morte pode mais que todas as rainhas e todos os reis, mas também este poder todo-poderoso foi sujeito à nossa rainha. A morte matou a Isabel, mas Isabel pôde mais, porque matou a morte. E como a matou? Não podendo a morte desfazer o corpo em que vivia aquela alma, o qual há trezentos anos se conserva incorrupto. Ameaçava Cristo pelo profeta Oséias a morte, e dizia-lhe: Ero mors tua, o mors (Os. 13,14): Deixa-te estar morte, que eu te matarei, eu serei a tua morte.

(continua...)

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