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#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

Tenho acabado, fiéis, o meu discurso, e não sei se tendes também concluído o vosso. Se me ouvistes com discurso, se me ouvistes com a devida consideração, com os mesmos argumentos com que ponderei os extremos do amor de Cristo, devíeis vós também ter ponderado e conhecido as obrigações do vosso. E que obrigações são essas? Porventura, porque o amor de Cristo chegou a nos deixar a nós por amor de nós, obriga-nos este mesmo amor a que nós também deixemos a Cristo por amor de Cristo? Se eu pregara noutro tempo e noutro lugar, facilmente o inferira e persuadira assim. A maior fineza que fez por Cristo aquela grande alma de S. Paulo, foi deixar a Cristo por amor de Cristo: Cupio dissolvi et esse cum Christo; manere autem necessarium proptervos.28 Assim o fizeram, saindo dos desertos os Arsênios, e não saindo das cidades os Martinhos, e em todas as idades, e ainda na nossa, tantos outros varões de extremado amor e zelo, a quem a mitra era peso, a vida tormento, a morte desejo, e só Cristo a ambição e a saudade. Mas, deixados àqueles heróicos espíritos o primor tão pouco imitado destas correspondências, falemos com o desamor, com a ingratidão e com o pouco juízo das nossas. É possível que sinta tanto Cristo o aportar-se de nós, e que haja homens que não sintam o aportar-se de Cristo, antes tenham por gosto e por vida, e ainda por felicidade, o que os aporta dele? Cristão ingrato e infeliz, que há tantos anos vives tão aportado de Cristo, que juízo é o teu neste dia do juízo do teu amor? Cristo sente tanto aportar-se de ti, indo para o céu: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, e tu sentes tão pouco aportar-se de Cristo, indo para o inferno? Antes queres o inferno sem Cristo, que o céu e a bemaventurança com Cristo? Se, como cristão, não te lembras de Cristo, ao menos como homem, lembra-te de ti. Dize-me, dize-me: Fazes conta de te aportar alguma hora de tudo o que te aporta de tua salvação? Se não fazes essa conta, que tanto devias fazer, não falo contigo, porque nem és cristão, nem homem, nem tens fé, nem tens juízo. Mas se fazes conta, como é certo que fazes, e se tens propósitos, como é certo que tens, de alguma hora te converter a Cristo, de alguma hora te chegar a Cristo, de alguma hora te aportar de tudo o que te aporta de Cristo, quando há de ser esta hora? Esta é a hora, cristão, esta é a hora: Sciens quia venit hora ejus. Esta é a hora de acabar com o mundo: Ut transeat ex hoc mundo. Esta é a hora de romper as cadeias desse mau vicio, qualquer que seja, que tão preso te tem e tanto te tiraniza. Esta é a hora de acabar de conhecer, e te desenganar desse falso e enganoso amor. Esta é a hora de abrir os olhos a esse amor cego. Esta é a hora de reformar esse amor escandaloso. Esta é a hora de purificar esse amor impuro, e de o pôr todo em (Cristo. Aproveitemo-nos, cristãos, desta hora, pois não sabemos se teremos outra hora. Aproveitemo-nos, torno a dizer, desta hora, pois não sabemos se teremos outra. Ah! Senhor, como se há de converter noutra hora, quem se não converte a vós nessa hora vossa? Como vos há de amar noutra hora, quem vos não ama nesta hora de vosso amor? Por reverência desta hora, por honra e glória desta hora, por amor do amor desta hora, que triunfe nesta hora vosso poderoso amor desta dureza tão dura de nossos corações. Não permitais, Senhor, por vossa bondade, que saia deste cenáculo nesta hora vossa, algum coração que não seja vosso. Basta um Judas, basta um ingrato, basta um inimigo, basta um traidor. Oh! triste alma! Oh! miserável alma! Oh! desventurada alma! Oh! alma que melhor te fora não ser criada, e que nesta hora se não rende ao amor de Cristo!

Amoroso Jesus, todos nesta hora estamos rendidos ao vosso amor. Todos nesta hora, e desde esta hora, vos queremos amar de todo nosso coração. Só a vós, Senhor, só a vós: só a vós queremos amar, para nunca mais vos ofender; só a vós queremos amar, para nunca mais vos ser ingratos; só a vós queremos amar, para nunca mais nos aportarmos de vós; só a vós queremos amar, para desta hora em diante nos aportarmos para sempre de tudo o que aporta de vosso amor. Seja esta hora o fim de todo o amor que não é vosso, e seja o princípio de vos amarmos sem fim, assim como vós sem fim nos amastes: Infinem dilexit eos.

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