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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

O demônio, vendo na primeira tentação que Cristo se defendia com a Escritura, para o tentar pelos mesmos fios, alegou na segunda tentação outra Escritura. Mas, o que é muito para admirar e ainda para reverenciar, foi, que nem contra o primeiro, nem contra o segundo, nem contra o terceiro texto alegado por Cristo argüísse, nem instasse o demônio uma só palavra. O demônio é mais letrado, mais teólogo, mais filósofo, mais agudo e mais sutil que todos os homens. Pois, se os homens, e tantos homens, têm argüido tanto e por tantos modos contra umas e outras Escrituras de Cristo, antes se atreveram a lhe fazer guerra com elas, voltando as mesmas Escrituras contra o mesmo Cristo, e interpretando-as não só em sentido falso, mas totalmente contrário, por que não fez também isto o mesmo demônio? Porque era demônio, e não homem. Porque era demônio tentou como sábio; porque não era homem não tentou como néscio e impudente. Tentar e argüir, e teimar contra a verdade conhecida das Escrituras não é insolência que se ache na maldade do demônio; na do homem sim. Agora entendereis a energia com que na porábola da cizânia respondeu o pai de famílias: Inimicus homo hoc fecit (Mt 13, 28): O trigo que ele tinha semeado, é a doutrina pura e sã das Escrituras Sagradas; a cizânia que se semeou sobre o trigo, são as falsas interpretações com que se perverte o verdadeiro sentido das mesmas Escrituras. E quem é ou foi o autor desta maldade e deste desengano tão pernicioso à seara de Cristo? Inimicus homo: o inimigo homem. Notai. Porece que bastava dizer o inimigo, mas acrescentou e declarou que esse inimigo era homem, para distinguir o inimigo-homem do inimigo – demônio. O demônio é inimigo, e grande inimigo; porém o inimigo-demônio, nunca foi tão demônio, nem tão inimigo, que se atrevesse a voltar contra Cristo as Escrituras que ele alegava por si, como se viu em todas as três tentações; mas isto que nunca fez o inimigo-demônio, isto é o que fizeram e fazem os inimigos-homens: Inimicus homo hoc fecit. Bem sei que alguns santos por este Inimicus homo entenderam o demônio. E quando esta inteligência seja verdadeira, aí vereis quem são os homens. Assim como nós, quando queremos encarecer a maldade de um homem, lhe chamamos demônio, assim Deus, quando quis encarecer a maldade do demônio, chamou-lhe homem: Inimicus homo. Ao menos eu, se houvera de escolher tentador, antes havia de querer ser tentado pelo demônio que pelos homens. Cristo, guiado pelo Espírito Santo, escolheu tentador: Ductus est a Spiritu, ut tentaretur. E que tentador escolheu? Ut tentaretur a diabolo:31 escolheu tentador-diabo, e não tentador-homem. O certo é que quando o diabo tentou a Cristo, Cristo foi buscar o diabo; mas quando os homens hoje tentaram a Cristo, os homens o buscaram a ele: Tentantes eum, ut possent accusare eum.32

§VI

Guardai-vos dos homens. O diabo anda pelos desertos porque nas cortes os homens lhe tomaram o ofício. Guardai-vos dos inimigos: Saul tenta contra a vida de Davi, depois de livre do demônio. Guardai-vos dos amigos: tentações dos três amigos de Jó. Sobretudo cada um se guarde de si mesmo.

Suposto isto, senhores, suposto que os homens são maiores e piores tentadores que o demônio, que havemos de fazer? Não é necessário gastar muito tempo em consultar a resolução, porque o mesmo Cristo a decidiu e no-la deixou expressa e mui recomendada como tão importante: Cavete ab hominibus (Mt. 10,17): Guardaivos dos homens. – Se eu pregasse no deserto a anacoretas, dir-lhesia que se guardassem do diabo; mas como prego no povoado, e a cortesãos, digo-vos que vos guardeis uns dos outros. O diabo já não tenta no povoado, nem é necessário, porque os homens lhe tomaram o ofício, e o fazem muito melhor que ele. Cristo, como pouco há dizíamos, quis ser tentado do diabo, e foi-o buscar ao deserto. Senhor, se quereis ser tentado do demônio por que o não ides buscar à cidade, à corte? Porque nas cidades e nas cortes já não há demônios. E não se saíram por força de exorcismos, senão porque o seu talento não tem exercício. Se à corte vêem alguns artífices estrangeiros mais insignes e de obra mais prima, os oficiais da terra ficam à pá, vão se fazer lavradores. Assim lhe aconteceu ao demônio. Ele era o que tinha por ofício ser tentador; mas como sobrevieram os homens, mais industriosos, mais astutos, mais sutis e mais primos na arte, ficou o diabo ocioso; se tenta por si mesmo, é lá a um ermitão solitário, onde não há homens: por isso se anda pelos desertos, onde Cristo o foi buscar. Não digo que vos não guardeis do demônio, que alguma vez dará cá um salto; o que vos digo é que vos guardeis muito mais dos homens, e vede se tenho razão.

(continua...)

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