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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Mas não é ainda este o mais escandaloso reparo. Habacuc levava no braço a sua cesta de pão, mas ele não reparou no pão nem na cesta: reparou somente na Babilônia e no lago; vós às avessas, na Babilônia e no lago, nenhum reparo; no pão e na cesta, aí está toda a dúvida, toda a dificuldade, toda a demanda. Babilônia, Daniel, lago, leões, tudo isso é mui conforme ao meu espírito, ao meu talento, ao meu valor. Eu irei a Babilônia, eu libertarei a Daniel, eu desqueixarei os leões, se for necessário; não é essa a dificuldade, mas há de ser com as conveniências de minha casa. Não está a dúvida na Babilônia; está a dúvida e a Babilônia na cesta. O pão desta cesta é para os meus segadores; ir e vir a Babilônia, e sustentar a Daniel à custa do meu pão, não é possível nem justo. Os meus segadores estão no campo, a minha casa fica sem mim, Babilônia está daqui tantos centos de léguas, tudo isso se há de compor primeiro; hão-me de dar pão para os segadores, e pão para a minha casa, e pão para a ida, e pão para a volta, e para se acaso lá me comer um leão, que só neste caso se supõe o caso, e por se acaso eu morrer na jornada, esse pão há-me de ficar de juro, e quando menos em três ou quatro vidas. Não é isto assim? O ponto está em encher a cesta e segurar o pão. E o de mais? Suceda o que suceder, confunda-se Babilônia, pereça Daniel, fartem-se os leões, e leve o pecado tudo. Por isso leva tudo o pecado. E quantos pecados vos parece que vão envoltos nesta envolta, de que nem vós, nem outros fazem escrúpulo? Mas, dir-me-eis, se acaso vos quereis salvar: – Pois, padre, como me hei de haver neste caso? – Como se houve o profeta. Primeiro escusar, como se ele escusou, e se não valer a escusa, ir como ele foi. E como foi Habacuc? Tomou-o o anjo pelos cabelos, e pô-lo em Babilônia Se vos não aproveitar uma e outra escusa, ide, mas com anjo, e pelos cabelos: com anjo que vos guie, que vos encaminhe, que vos alumie, que vos guarde, que vos ensine, que vos tenha mão, e ainda assim muito contra vossa vontade: pelos cabelos. Mas que seria se em vez de ir pelos cabelos fôsseis por muito gosto, por muito desejo, e por muita negociação? E em vez de vos levar da mão um anjo, vos levassem da mão dois diabos, um da ambição, outro da cobiça? Se estes dois espíritos infernais são os que vos levam a toda a parte onde ides, como não quereis que vos levem ao inferno? E que nestes mesmos caminhos seja uma das alfaias deles o confessor! E que vos confesseis quando ides assim, e quando estais assim, e quando tornais assim! Não quero condenar, nem louvar, porque o prometi; mas não posso deixar de me admirar com as turbas: Et admiratae sunt turbae.

§VI

Quibus auxiliis? Com que meios? Três dedos e uma pena, o ofício mais arriscado do governo humano. A escrita fatal do festim de Baltasar. Os ministros da pena e as parteiras do Egito. O texto obscuro de Davi. Importância dos escribas. Comparação do profeta Malaquias. Etimologia de calamidade. As penas dos quatro evangelistas. Os massoretas e a pontuação das Escrituras Sagradas. As arrecadas da Esposa do Cântico dos Cânticos.

Quibus auxiliis? E com que meios se fazem e se conseguem todas estas coisas que temos dito? Com um papel e com muitos papéis: com certidões, com informações, com decretos, com consultas, com despachos, com portarias, com provisões. Não há coisa mais escrupulosa no mundo que papel e pena. Três dedos com uma pena na mão é o oficio mais arriscado que tem o governo humano. Aquela escritura fatal que apareceu a el-rei Baltasar na parede, diz o texto que a formaram uns dedos como de mão de homem: Apparuerunt digiti, quasi manus hominis (Dan. 5,5). – E estes dedos, quem os movia? Dizem todos os intérpretes, com S. Jerônimo, que os movia um anjo. De maneira que quem escrevia era um anjo, e não tinha de homem mais que três dedos. Tão puro como isto há de ser quem escreve. Três dedos com uma pena podem ter muita mão, por isso não há de ser mais que dedos. Com estes dedos não há de haver mão, não há de haver braço, não há de haver ouvidos, não há de haver boca, não há de haver olhos, não há de haver coração, não há de haver homem: Quasi manus hominis. – Não há de haver mão para a dádiva, nem braço para o poder, nem ouvidos para a lisonja, nem olhos para o respeito, nem boca para a promessa, nem coração para o afeto, nem finalmente há de haver homem, porque não há de haver carne nem sangue. A razão disto é porque, se os dedos não forem muito seguros, com qualquer jeito da pena podem fazer grandes danos.

(continua...)

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