Por Padre Antônio Vieira (1669)
Então tudo é queixar e infamar os ministros, e talvez com tanto excesso e atrevimento, que ainda sobem as queixas mais acima. Eu não tenho tanta opinião dos nossos tribunais na justiça distributiva, como noutras espécies desta virtude, mas para o fim da predestinação e salvação, que é o último despacho, e o que só importa, tanto se serve Deus de ministros justos, como de injustos, e tanto da sua justiça, se a observam, como da sua injustiça. Quis Deus salvar o gênero humano naquele dia fatal em que deu a vida por ele; e de que ministros se serviu sua providência? Caso estupendo! Serviu-se de Judas, de Anás, de Caifás, de Pilatos, de Herodes e por meio da injustiça e impiedade de homens tão abomináveis se conseguiu a salvação de todos os predestinados. Se esperais ser um deles, não vos queixeis. E se me dizeis que foram injustos os ministros convosco, também vô-lo concedo, posto que o não creio. Mas que importa que ou neste conselho fossem Judas ou naquele Anases e Caifases, ou noutro Herodes e Pilatos, se por meio da sua injustiça tinha Deus predestinado a vossa salvação? Eles irão ao inferno pela injustiça que vos fizeram, e vós, por ocasião da mesma injustiça, ireis ao céu. Notai, neste mesmo dia, dois concursos dignos de toda a ponderação, para que vos não queixeis de ver preferidos os que concorreram convosco. O primeiro concurso foi de Cristo com Barrabás, e ambos foram julgados com suma injustiça, porque Barrabás, ladrão, adúltero, homicida e traidor, saiu absolto, e Cristo, sumamente inocente e sumamente benemérito, condenado. O segundo concurso foi de Dimas e Cestas, o bom e o mau ladrão, e ambos foram condenados com igual justiça, porque ambos como ladrões mereciam a forca. E que tirou Deus destes dois concursos e destes dois juízos tão encontrados? O primeiro foi por ambas as partes injusto; o segundo, por ambas as partes justo, e de ambos tirou Deus igualmente a condenação dos precitos e a salvação dos predestinados. Do primeiro tirou a condenação de Barrabás e a glória de Cristo; do segundo tirou a glória do bom ladrão e o inferno do mau, porque para salvar ou não salvar, tanto se serve Deus da justiça dos homens como da sua injustiça Concedo-vos que podeis ser consultado, julgado, e despachado, ou injustamente, como vós dizeis, ou justamente, como não confessais; mas nem da justiça nem da injustiça dos ministros vos deveis queixar, se tendes fé, porque tanto pode pender dessa justiça a vossa condenação, saindo bem despachados para o inferno, como depender dessa injustiça a vossa salvação, saindo mal despachados para o céu.
E se não tendes razão para vos queixar dos ministros, muito menos a tem a vossa temeridade para subirem talvez as queixas até o sagrado, onde se decretam as resoluções. E por quê? Porque ainda que os reis são homens, Deus é o que tem na sua mão os corações dos reis. Cor regis in manu Domini; quocumque voluerit inclinabit illud (Prov. 21,1): O coração do rei, diz Salomão, está na mão de Deus, e a mão de Deus é a que o move e inclina a uma ou outra parte, segundo a disposição de sua providência. Como o coração do rei está na mão de Deus, se Deus abre e alarga a mão, alarga-se também o coração do rei, e faz-vos mercê com grande liberalidade:: e se Deus aperta e estreita a mão, estreita-se do mesmo modo o coração do rei, e, ou vos dá muito menos, ou nada do que pedíeis.
De maneira que ainda que o rei é o senhor que dá ou não dá, tem sobre si outro senhor maior que é o que lhe alarga ou estreita o coração, para que dê ou não dê. Rei era Ciro e rei era Faraó: Ciro dominava os hebreus no cativeiro da Babilônia, e Faraó dominava os mesmos hebreus no cativeiro do Egito; mas a cousa superior de serem tão diferentemente tratados, não foi Ciro, nem Faraó, senão Deus. Como Deus tinha na mão o coração daqueles reis, alargou a mão ao coração de Ciro, e deu Ciro liberdade aos hebreus e estreitou a mão ao coração de Faraó, e não só os não libertou Faraó, antes lhes apertou mais o cativeiro. Adverti porém para consolação vossa, que este mesmo aperto e esta mesma estreiteza e dureza do coração de Faraó, foi a última disposição que Deus traçava para levar os hebreus, como levou, à Terra de Promissão. Se o coração do rei, tão largo, e tão liberal com outros, é para convosco estreito e ainda duro, alargai vós o vosso coração, e consolai-vos, e entendei que por esse meio vos quer Deus levar à Terra de Promissão do céu, para que vos tem predestinado. Pode haver maior consolação que esta? Não pode.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.