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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Navegavam com socego; os officiaes gosando o doce lazer que o mar lhes dava recompunham as memorias da aventura, tal relembrando um facto ou corrigindo-o, qual acautelando uma lembrança que trouxera d'esta ou d'aquella terra em que poiara e a maruja, descansada, cantava, como na Patria, desafiando as saudades perigosas. Iam n'esse descanço quando, demandando novamente a terra, acharam-se, como por encanto, diante do Ilhéo da Cruz que haviam deixado.

Foi grande o espanto a bordo e, se o capitão não houvesse explicado que as correntes haviam feito desandar a frota ficaria no espirito da maruja uma nova e prejudicial crendice. Puzeram novo esforço e, com o favor dos ventos, foram por avante passando a 25 de Dezembro á vista de uma costa que foi chamada do Natal em commemoração da festa que n'aquelle dia era celebrada em toda a christandade. Pouco adiante viram, com magua, os marujos que um dos mastros da nau do Gama era fendido e, como melhor puderam, repararam-n'o aguardando momento mais propicio para um fabrico cuidadoso; ainda, para maior prejuizo, rebentando um dos calabretes, foi-se ao fundo, perdida, uma das ancoras da capitanea. Entrementes começou a sentir-se a sede a bordo porque os toneis estavam quasi enxutos tanto que a agua foi parcamente distribuida, cabendo a cada homem um escasso quartilho e cozendo-se os alimentos com a que tiravam do mar. Buscaram de novo a terra e tanto que com ella se avistaram viram na praia robustos homens e mulheres de porte valido que os olhavam, com espanto, vir chegando.

Apezar do que lhe vinha acontecendo ao longo do littoral inhospito e selvagem quiz ainda o Gama tratar com os naturaes e mandou Martim Affonso e outro de bordo para com elles entreterem fallas mas não os entendeu o interprete ; isso, porém, não descoroçoou o Gama que, conhecedor do povo que alli tinha, soube fazer com que logo se houvesse com bom geito e humana compostura. Assim pensando mandou ao senhor da região umas calças, uma, jaqueta uma carapuça vermelha e uma manllha de cobre. Com taes offertas poz-se o regulo em tão agitada alegria que os mesmos marinheiros riram de seus modos e, como para demonstrar a sua gratidão, offereceu aos portuguezes tudo quanto d'elle dependia.

A' noite Martim Affonso e o companheiro seguiram o magnata negro á sua aldeia e alli acharam affavel diversorio sendo-lhes servida uma ceia farta ao abrigo da choupana que era a residencia nobre do rei negro. Emquanto comiam viam elles andar a gente barbara que acudira maravilhada a contemplal-os —os homens nús e nuas as mulheres com uma tanga apenas a compol-os, uns mostrando os seus torsos de basalto e os seus biceps rijissimos, outras com os seios tesos reluzindo, algumas traziam filhos; e exprimiam-se em tal algaravia que nem perceber podiam os da nau o que diziam senão pelos olhares espantados com que os fitavam acompanhando-os.

O magnata não se continha de contente olhando as suas louçainas e quando o hospedes, regalados e satisfeitos, despe- diram-se quiz o regulo honral-os dando- lhes uma escolta que os acompanhasse ao embarque.

O que mais apreciavam os negros d'essa localidade eram os pannos de linho e por elles davam grandes porções de cobre que alli era nativo e abundante porque todos traziam enfeites d'esse metal, não só nos braços e nos tornozelos como nas carapinhas duras.

O Gama, sorprehendido com a affabilidade do povo, deu áquella paragem o nome amigo de Terra da boa gente, e ao rio onde se provera chamou do Cobre. D'alli partiram com grande pena dos naturaes passando ao largo do cabo das Correntes e da costa aurifera de Sofala.

Vendo adiante da proa a foz d'um rio de margens frondosamente arborescidas foi-se por elle acima o Gama ousado notando que se adensava o bosque e que as margens se alongavam em balseiros mortos. Ia singrando quando avistou, descendo, varias almadias com homens que as governavam alegremente e outros qu n'ellas vinham de passagem. Como o da Terra da boa gente eram trataveis e, tanto e viram as naus puzeram-se a acenar saudando os da companha e logo, atracando, como se amigos fossem, guindaram-se pelos cabos acudindo jocundamente aos reclamos que lhes faziam. E de todos partiam vozes de amizade que eram correspondidas pelos portuguezes. Alguns dos que chegavam, interpellados por Fernão Martim, em arabe, respondiam como se lhes não fosse desconhecido o idioma, posto que em outro se exprimissem; com isto teve o Gama grande alegria percebendo que assim fallando tinham elles trato com musulmanos e poderiam prestar-lhe informações que servissem ao seu roteiro. Trazendo á nau o que a terra produzia recebiam do Gama outros presentes e, com taes permutas, mais se foram apertando as allianças.

Entre os que vinham foi logo observado um mancebo de sympathica figura e lhano que, conversado, explicou por acenos, ser de longes terras e que já vira barcos como aquelles do mesmo porte e assim mesmo armados.

(continua...)

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