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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Leia, doutor! Leia! Quanto à opinião do Dr. Bastos, não se incomode, pois ele dá toda a liberdade a seus amigos.

Quando Numa voltou em demanda ao interior da casa, ainda olhou distraído a estatueta que continuava repousada, serena, na meia penumbra do salão.

A vida do casal continuava a ser a mesma. Viviam um ao lado do outro, sem grandes ternuras, sem ódio, sem também a perfeita e mútua penetração que o casamento supõe. Pareciam habituados àquele viver desde muito tempo; e D. Edgarda costumava a velar, a animar a carreira política do marido, maternalmente.

Era a sua ambição que se realizava na celebridade do marido. Educanda das irmãs, de Botafogo, ela não queria ficar atrás das outras e lembrava-se do que lhe dissera certo dia à irmã Teresa, com sua voz macia e aquele olhar inteligente que dava tanta vida à sua cútis de pergaminho.

— Veja só, Edgarda, quase todos os homens importantes do Brasil têm casado com moças educadas aqui. A mulher do Indalécio, O Ministro da Justiça, foi nossa discípula; a Rosinha, que se casou com o Castrioto, do Supremo Tribunal, também; e a mulher do almirante Chavantes? e a Laurentina? como era bonita, meu Deus! Coitada! essa morreu cedo mas o marido foi longe. É rara, minha filha, a educanda nossa que não leva o marido longe.

Nunca havia se esquecido do que lera naquele palimpsesto debaixo de tais palavras; e casara, certa de que Numa ia fazer o seu nome ecoar por todo o país. Era preguiçoso, descansado; mas já dera o primeiro passo e a questão estava em continuar. A sua satisfação foi grande quando o viu elogiado, apontado, em caminho da notoriedade; mas, era necessário que não ficasse ali. Precisava insistir, ter o seu nome em todas as bocas, ser falado diariamente pelos jornais, como era o marido da Ilka, sua antiga colega.

Notava ela que a celebridade do marido começava a esfriar, a ser esquecida; e ficava contrariada quando lhe diziam nas lojas, aqui ou ali que não o conheciam. Fizera o marido comprar muitos números da Os Sucessos” e mandar para o Estado; insistira com o pai para que a biografia fosse transcrita no órgão oficial do partido em Itaoca. Esforçava-se por adivinhar os golpes que ele pudesse levar e só os via por parte de Salustiano, um contra-parente do pai, que parecia não ver com bons olhos o domínio de Cogominho.

Tinha nascido no Estado, ocupava um bom emprego e todo o desejo dela era tê-lo sempre afastado de Sepotuba, para não obter influência direta, ficar sempre na dependência de Cogominho e não fazer valer em proveito próprio a tradição do pai dele, Salustiano.

Recomendava muito ao marido que fosse gentil com ele, que o convidasse a jantar, que perguntasse pela família; mas Numa tinha uma pequena implicância com o parente, por saber que sempre o tratava como — “o genro do Cogominho”.

Dissera mesmo isso à mulher; ela, porém, lhe recomendara que não desse atenção e lhe captasse a boa vontade.

Edgarda lembrou-se naquela manhã de insistir com Numa para que ele aparecesse na tribuna. A visita de Fuas fê-la adiar de propósito e ocupou toda a manhã em coisas caseiras. Foi ao jardim, correu à chácara, viu bem a horta, porque era ela unicamente quem se interessava por aquelas dependências da casa.

O marido, apesar de ter nascido em cidade pequena do interior, não as apreciava; e se ia por ali, passava por sobre os canteiros um olhar distraído e indiferente. Só uma mangueira despertava-lhe interesse e era de antipatia. Ele não notava a beleza da fruteira, os seus grandes ramos alongados como braços, a sua sombra maternal e piedosa; Numa antipatizava com a árvore porque não dava frutos.

A mulher era quem se interessava por aquelas silenciosas e consoladoras vidas, que lhe sugeriam recordações de menina, de moça, da mãe, do avô.

D. Romana, a tia-avó, ficava no interior e tinha pelos velhos trastes, pelas velhas terrinas rachadas, por tudo quanto era alfaia velha ou utensílio antigo, um interesse de depositária do passado. Não deixava pôr fora um móvel bichado, um bule sem tampa, só se de todo não lhe fosse possível esconder em qualquer socavão da casa.

Entre as duas, a velha tia e a sobrinha moça, havia esse acordo tácito de tratar uma do exterior e a outra do interior do velho casarão do falecido Gomes.

D. Edgarda viu com prazer a visita de Fuas. Estava no fundo do quintal, mas de lá mesmo pode reconhecê-lo pelo automóvel. Continuou, porém, na chácara e não notou a saída do jornalista.

Até quase à hora do almoço ficou vendo as hortaliças, os preparativos do chacareiro para protegê-las do verão; e, quando deixou a horta, já a mesa estava posta.

Numa empregava o tempo fazendo lentamente a sua “toilette” de sair. Sempre a fizera com lentidão e vagar; desde os tempos de pobreza, que ele oficiava no vestir a calça, no abotoar os punhos e estudava bem ao espelho o atar da gravata.

À mesa, sentaram-se, como de costume, ele, a mulher e a mulher e a velha D. Romana.

Em começo, antes de desdobrarem o guardanapo, Edgarda perguntou:

— Numa, não foi o Fuas quem esteve aqui? — Foi

(continua...)

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