Por Coelho Neto (1924)
Vivo, saías, passavas horas longe de nós, mas estavas preso à vida e vinhas por ela à casa com o teu passo senhoril e espalhavas por ela o som da tua voz, a alegria do teu sorriso. Dividias-te com os amigos que te disputavam.
Agora és todo nosso, não sais de nós, és nós mesmos, como é mar a água que regressa ao oceano lançada pela nuvem que a sorveu.
Teu dia! Como se pudéssemos destacar um dia entre tantos, só respirar, só ver luz, ouvir vozes, viver, enfim, um só dia!
Sendo, como sempre foste, e és, o nosso amor, estás constantemente conosco e continuamos a chamar-te filho, como se andasses entre os teus irmãos.
Se eu não te houvesse assistido na agonia, recolhendo, num beijo, a lágrima derradeira que choraste, não acreditaria na tua morte, tão rápida foi ela...
Onde se viu o céu anoitecer antes da tarde?
Se a natureza regula o tempo, não extinguindo a Luz senão quando lhe chega o instante de apagar-se, por que havia a Morte de abater um jovem no verdor da esperança, quando nele mais ardia a mocidade?
Custaste tanto a crescer! Primeiro entre nós, aninhado entre dois corações, vigiado por olhos vígilos, aquecido a beijos; depois no berço ajoujado ao nosso leito e quando menino, tiveste a tua cama em quarto próprio. Quanta vez, alta noite, fomos, medrosamente, pé ante pé, escutar o teu coração, sentir teu hálito como se adivinhássemos a traição que havia de arrebatar-te!
Na cama de menino sonhaste os teus primeiros sonhos, meditaste os teus primeiros pensamentos e, começavas, talvez, a sentir a solidão do Paraíso quando a Morte entrou em ti alanceando-te o corpo esbelto.
Pobre filho! O que a tortura fez de ti! Como tu te refugiaste na infância imaginando, assim, com tal meiguice, esconder-te da pérfida!
Ressuscitaram na tua boca ressequida os diminutivos carinhosos com que nos chamavas, à noite, quando temias a escuridão.
Ouvindo-te parecia-me que eras o pequenino que acalentávamos nos braços. Saudoso tempo! Vinte e quatro anos viveste dentro da nossa vida. Eras como uma torre que construíramos pouco a pouco, dando-lhe eu, de mim, energia e coragem; e ela brandura e fé, e, justamente quando contávamos contigo para nosso amparo, quando nos fiávamos em ti para nossa defesa e sorríamos, um ao outro, contentes em nossa velhice, por possuirmos a tua mocidade, veio a Morte... e deixou-nos sós. Por que?
Se a alma é eterna como se explica que nos morresses, tu que eras a nossa alma?
Como nos iludíamos com a Vida acreditando que a tivesses em nós quando toda ela estava contigo!
Que é da nossa alegria? Não era nossa? Não a tínhamos em sorrisos? Onde estão eles, tais sorrisos?
Ai! de nós! eram reflexos de ti e tanto é isto verdade que, desde o teu desaparecimento, nunca mais se nos descolaram os lábios nem em nossos olhos brilhou mais o lume da felicidade.
A nossa ventura eras tu e jazes num sepulcro.
Vinte e quatro anos de amor esvaídos num suspiro!
E vale a pena construir com tão carinhoso desvelo um ser, depositando nele toda a nossa riqueza para que, a súbitas, a uma rajada do Destino, tudo alua deixando-nos à mercê do tempo e míseros?
Como nos guiaremos doravante na escuridão silente?
Vives, mas vives como um sonho que se desvanece com a manhã. Sentimos-te, mas se te procuramos não estás; és apenas lembrança, rastro na alma, dor na saudade, espinho no coração.
A rosa de Jericó reabre-se se a mergulham na água. Se acontecesse o mesmo com os mortos (tantas têm sido as nossas lágrimas!) já terias ressurgido do túmulo como se emergisses à tona de um oceano. Mas de que servem lágrimas?! Paraste na mocidade. Os teus irmãos menores prosseguirão na vida e tu, que os precedias, quedarás na hora em que caíste, vendo-os passar, transpor a idade em que foste ferido, entrar pelos anos além, envelhecendo, e eles falarão de ti, o irmão mais velho, morto com pouco mais de vinte e quatro anos. E assim ficarás sempre jovem na saudade dos teus, que te perderam.
Os que buscam consolar-nos tentam convencer-nos de que Deus te chamou tão cedo porque eras bom. E nós!? Por que nos havia Ele de ferir arrancando-te dos nossos corações?
O teu dia, meu filho, há de durar, sem noite, enquanto vivermos para a tua saudade. O teu dia não terá horas, será toda a nossa existência.
O RETRATO
Como a lâmpada perene das capelas, símbolo da Fé pervígila, o teu retrato, ante meus olhos, alumia-me a memória e, como fica o sacrário entre luz e penumbra, assim jaz o meu coração na saudade.
A imagem do teu corpo airoso, que se desfaz na terra podia desvanecer-se-me na lembrança, posto que eu nela o sinta vivo como outrora. Todavia, como tudo que é efêmero perece, para que o teu semblante e o teu todo me não fujam, como foge a sombra com o corpo que a reflete, tenho a lâmpada que nos aclara e, assim, com a alma que ficou comigo, por ser minha, e o retrato que me acompanha, conservo-te tal qual foste.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.